segunda-feira, 21 de maio de 2018

O repouso e o trabalho

Cumpre folgar o espírito: repousado, levanta melhor e mais enérgico. Assim como aos campos férteis não se deve exigir muito (pois depressa os exauriria uma fecundidade a que não se dá trégua), assim o contínuo labor quebrantará as forças do espírito, que as recobraria com um pouco de descanso e de distração. O labor contínuo faz nascer ao espírito certo embotamento e langor. Nem tenderia a isso com tanta força o desejo dos homens se não tivessem certo natural deleite o jogo e a distração. O abusar deles, no entanto, arrancará às almas todo peso e toda força: pois também o sono é necessário à restauração. Todavia, caso o prolongues dia e noite, será a morte. Há larga diferença entre afrouxar e soltar.
Os legisladores instituíram dias de festa a fim de que os homens se reunissem para se divertir em comum, interpondo aos trabalhos a necessária interrupção; e os grandes varões tomavam todos os meses alguns dias de férias, outros ainda os dividiam entre o ócio e as atividades. Recordamo-nos assim de Polião Asínio, o grande orador, a quem nenhum assunto detinha além da hora décima*: nem sequer as cartas ele lia após essa hora, a fim de que não surgissem novas preocupações: e naquelas duas horas** reparava o cansaço do dia todo. Outros repartiam pela metade o dia e deixavam para os trabalhos mais leves as horas da tarde. Também nossos antepassados proibiam que ocorresse nova discussão no Senado após a hora décima. Os soldados repartem entre si as vigílias; e os que voltam da expedição ficam livres do serviço noturno. É preciso ser indulgente com o espírito e dar-lhe, de tempos em tempos, um repouso que lhe sirva de alimento e restauração. É preciso também passear por espaços abertos, para que o espírito se fortifique e se eleve a céu livre e em pleno ar; algumas vezes, um passeio, uma viagem ou uma mudança de região darão vigor, ou mesmo um banquete e uma bebida em doses mais generosas.

*- quer dizer, além das quatro horas da tarde. A hora décima correspondia ao período das 15 às 16 horas
**- a hora undécima (das 16 às 17 horas) e a hora duodécima(das 17 às 18 horas) correspondiam aos dois últimos períodos do dia; vinham a seguir as quatro partes da noite, conhecidas como vigílias pelos antigos romanos.



Sêneca (4 aC- 65dC)

Sobre a tranquilidade da alma. Tradução de José Rodrigues Seabra Filho, São Paulo: Editora Nova Alexandria, 2004. p71-2.

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