domingo, 26 de agosto de 2018

Eu não sou máquina


Foi em seguida, ao longo de várias semanas, que aprendi a vida na linha de montagem. Neste primeiro dia, só fiz adivinhá-la: através da tensão de um rosto, de um gesto de irritação, da ansiedade de um olhar lançada na direção de uma carroçaria que vai chegando quando a precedente ainda não está acabada. Agora, observando os operários, um depois do outro, começo a notar uma certa diversidade naquilo que, à primeira vista, assemelhava-se a uma mecânica humana homogênea: um, comedido e preciso, o outro, nervoso e suando, os avanços, os atrasos, as minúsculas táticas de posto, os que largam suas ferramentas entre cada carro e os que as conservam-na mão, “os desligamentos”... E o perpétuo deslizar dos [carros] 2CV, lento e implacável, que se constrói de minuto em minuto, a cada gesto, de uma operação a outra. O furador. Os clarões. As brocas. O ferro queimado. [...]
Nos interstícios desse deslizar cinzento, entrevejo uma guerra de usura da morte contra a vida e da vida contra a morte. A morte: a engrenagem da linha de montagem, o imperturbável deslizar dos carros, a repetição de gestos idênticos, a tarefa jamais terminada. Um carro está pronto? O seguinte ainda não está e apresenta-se logo para ser soldado, exatamente no lugar onde se acabou de soldar, rugoso exatamente onde se acabou de polir. A solda está feita? Não, precisa ser feita. Feita definitivamente, desta vez? Não, deve ser feita de novo, nunca está acabada- como se não houvesse movimento, nem os gestos contassem, nem existissem mudanças, mas apenas um simulacro absurdo de trabalho que se desfaz logo após terminado, sob o efeito de uma maldição qualquer. E se nos dissermos que nada disso tem importância, que basta habituar-se a fazer os mesmos gestos de uma maneira sempre idêntica, num tempo sempre idêntico, aspirando unicamente à plácida perfeição da máquina? Tentação da morte. Mas a vida revolta-se e resiste. O organismo resiste. Os músculos resistem. Os nervos resistem. Alguma coisa, no corpo e na cabeças, defende-se contra a repetição e o nada. A vida: um gesto mais rápido, um braço que cai inoportunamente, um passo mais lento, um sopro de irregularidade, um movimento em falso, o “avanço”, o “afundamento”, a tática do posto: tudo o que nesse irrisório reduto de resistência contra o vazio eterno que é o posto de trabalho faz com que ainda haja acontecimentos, embora minúsculos, que haja ainda um tempo, mesmo se monstruosamente prolongado. Esta imperícia, este deslocamento supérfluo, esta súbita aceleração, esta solda imperfeita, essa mão que a refaz duas vezes, esta careta, este “desligamento”- é a vida que se aferra. Tudo o que, nos homens da linha de montagem, grita silenciosamente: “eu não sou máquina”.



Linhart, Robert (1944- )


Greve na fábrica (L’établi). Tradução de Miguel Arraes. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980. p 14-15

sábado, 25 de agosto de 2018

Bella ciao: canto de trabalho no arrozal


Alla mattina appena alzata
O bella ciao bella ciao bella ciao, ciao,ciao
Alla mattina appena alzata
In risaia mi tocca andar

E fra gli insetti e le zanzare
O bella ciao bella ciao bella ciao ciao ciao
E fra gli insetti e le zanzare
Un dur lavoro mi tocca far

Il capo in piedi col suo bastone
O bella ciao bella ciao bella ciao ciao ciao
Il capo in piedi col suo bastone
E noi curve a lavorar

O mamma mia o che tormento
O bella ciao bella ciao bella ciao ciao ciao

O mamma mia o che tormento
Io t'invoco ogni doman

Ma verrà un giorno che tutte quante
O bella ciao bella ciao bella ciao ciao ciao
Ma verrà un giorno che tutte quante
Lavoreremo in libertà.



https://www.youtube.com/watch?v=uAb52HOuv0w



quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Salário por produção nos canaviais


Marcha pelos canaviais. Aqui, um feitor, de camisa vermelha, balança portátil na cintura, caderneta na mão. Supervisiona quatro ou cinco trabalhadores espalhados entre as canas, que cortam e amarram em feixes. Pedimos para ver a caderneta. Ele mostra: deste lado, os nomes; do outro lado, em frente, a produção diária. A página da véspera, no conjunto, a coisa varia entre quinhentos e mil e quinhentos quilos por dia.
_ 2.250 nesta linha: por que este número tão elevado?
_. É um sujeito que vem trabalhar com a neta.
_E aqui, 150. Por que tão pouco?
_. É um menino de seis anos: é o que ele faz num dia. (150 quilos de cana; o salário é pela produção, este menino ganhou ontem 8 cruzeiros)
Pelas cinco horas, diz o feitor, faz-se a conta aqui mesmo. Mostra dois pretos que cortam cana a alguns passos de distância: “estes dois aí são ‘da rua’ (da cidade)”. Os pretos param de trabalhar e um responde às nossas perguntas:
_. Levanto-me às quatro da manhã para começar aqui às seis. Sou ‘volante’. Trabalho um dia aqui, outro lá.
_. Por que vocês vêm da cidade para trabalhar na cana? Não dá para arranjar outro trabalho?
Tem nada, diz ele com uma careta de desgosto. Acende um cigarro e cala-se. O feitor mostra o feixe que ele acaba de amarrar: “se ele fizer cem como este, terá os 1500 quilos”.
Afastamo-nos e ele recomeça a cortar cana. Movimento lentos. Umidade tropical. Esta maneira arrastada do falar brasileiro. Sente-se como que um esvaziamento interior. À nossa frente, perto da cana que está sendo cortada, uma zona de incêndio. Na pista, ao pé de uma colina, um caminhão azul está sendo carregado por quatro homens- vibração dos feixes de cana. Murmúrio de um riacho no meio da terra queimada. Cheiro de cinza. O vento carrega as cinzas finas, que penetram por toda a parte, até nas casas e nos quartos. Ruído longínquo de vozes no canavial e da própria cana sendo cortada. No fundo da paisagem, a “casa grande” rodeada de palmeiras, brancura quase totalmente oculta ao olhar. À nossa volta, um horizonte de colinas. E nesta umidade, estes barulhos moles: nesta depressão achatada, sempre, sempre, uma enorme sensação de esvaziamento.

Linhart, Robert (1944- )



O açúcar e a fome: pesquisa nas regiões açucareiras do nordeste brasileiro. Tradução de J. Silveira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.p 16-17.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

O trabalho como metáfora


Consideremos agora outras metáforas estruturais que são importantes em nossas vidas: O TRABALHO É UM RECURSO e O TEMPO É UM RECURSO. Ambas se baseiam culturalmente em nossa experiência com recursos materiais. Os recursos materiais são, caracteristicamente, matérias-primas ou fontes de energia. Considera-se que ambos servem a determinados fins. Pode-se usar os combustíveis para calefação, transportes ou como fontes de energia para a manufatura de um produto final. As matérias-primas se transformam diretamente em produtos. Em ambos os casos, se pode quantificar os recursos materiais e a eles atribuir um valor. Nos dois casos, o que é importante para cumprir o propósito concreto é o tipo de material que se opõe à parte ou quantidade particular. Por exemplo, não importa quantos pedaços de carvão aqueçam a casa de alguém, desde que sejam do tipo de carvão adequado. Nos dois casos, o material se consome progressivamente, conforme vá cumprindo seu objetivo. Em resumo:

Um recurso material
é um tipo de substância
se pode quantificar com bastante precisão
se pode lhe atribuir um valor pela quantidade em cada unidade
serve a um determinado propósito
se vai consumindo progressivamente conforme serve a esse propósito.

Tomemos um caso simples, no qual alguém fabrica um produto a partir de uma matéria-prima. Efetua uma certa quantidade de trabalho. Em geral, quanto mais trabalho se realiza mais produtos acabados se obtém. Assumindo que isto seja correto, -que o trabalho é proporcional à quantidade de produto- podemos atribuir um valor ao trabalho em termos do tempo que custa produzir uma unidade do produto. O modelo perfeito é a linha de montagem onde a matéria-prima entra por um extremo, se realiza trabalho em etapas progressivas, cuja duração se fixa segundo a velocidade da própria linha, e o produto sai pelo outro extremo. Isto proporciona uma base para a metáfora O TRABALHO É UM RECURSO da seguinte forma:

O TRABALHO é um tipo de atividade (lembre-se:
UMA ATIVIDADE É UMA SUBSTÂNCIA)
se pode quantificar com bastante precisão (em termos de tempo)
se pode lhe atribuir um valor por unidade
serve a um fim determinado
se consome progressivamente conforme serve a esse propósito

Uma vez que se pode quantificar o trabalho em termos de tempo, e normalmente ele é assim quantificado, em uma sociedade industrial temos as bases da metáfora O TEMPO É UM RECURSO:
O TEMPO é um tipo de substância (abstrata)
se pode quantificar com bastante precisão
se pode lhe atribuir um valor por unidade
serve a um fim determinado
se consome progressivamente conforme serve a esse propósito

Quando vivemos das metáforas O TRABALHO É UM RECURSO e O TEMPO É UM RECURSO, como ocorre em nossa cultura, tendemos a não vê-las como metáforas. Porém, como mostra nossa explicação de sua base na experiência, as duas são metáforas estruturais básicas nas sociedades industriais ocidentais.
Essas duas metáforas estruturais complexas usam metáforas ontológicas simples. O TRABALHO É UM RECURSO utiliza UMA ATIVIDADE É UMA SUBSTÂNCIA. O TEMPO É UM RECURSO utiliza O TEMPO É UMA SUBSTÂNCIA. Estas duas metáforas de SUBSTÂNCIA permitem quantificar o trabalho e o tempo, isto é, medi-los, concebê-los como algo que se consome progressivamente e atribuir-lhes valores monetários; também nos permitem ver o tempo e o trabalho como coisas que podem ser usadas para diversos fins.
Mas, O TRABALHO É UM RECURSO e O TEMPO É UM RECURSO não são universais, sob nenhum pretexto. Emergiram de maneira natural em nossa cultura devido à maneira pela qual vemos o trabalho, nossa paixão pela quantificação e nossa obsessão por cumprir propósitos. As duas metáforas destacam aqueles aspectos do trabalho e do tempo que são centralmente importantes em nossa cultura. Ao fazê-lo, também desenfatizam ou ocultam certos aspectos do trabalho e do tempo. Podemos ver o que ocultam examinando em que coisas se concentram.
Ao considerar o trabalho como um tipo de atividade, a metáfora assume que se pode identificar claramente o trabalho e se pode distingui-lo de coisas que não são trabalho. Assume-se que podemos diferenciar o trabalho do jogo e a atividade produtiva da não produtiva. Estas suposições, obviamente não se ajustam à realidade em numerosos casos, com exceção talvez do caso das linhas de montagem, trabalho forçado, etc. Considerar o trabalho meramente como um tipo de atividade, independente de quem o realiza, como o experimenta e o que significa em sua vida, encobre a questão de se o trabalho é significativo de maneira pessoal, satisfatória e humana.
A quantificação do trabalho em termos de tempo, junto à visão de tempo como algo que serve a determinados fins, induz a noção de tempo livre, que é paralela à noção de tempo de trabalho. Em uma sociedade como a nossa, na qual não se considera a inatividade como um fim em si mesmo, se desenvolveu uma indústria totalmente dedicada à cultura do tempo livre. Como resultado, o tempo livre também se converte em um recurso, que se deve gastar de uma maneira produtiva, utilizar com sabedoria, economizar, que se pode desperdiçar, perder, etc. O que fica oculto nas metáforas de RECURSO quando se aplicam ao trabalho e ao tempo é a forma pela qual nossos conceitos de trabalho e tempo afetam nosso conceito de ócio, convertendo-o em algo incrivelmente parecido ao trabalho.
As metáforas de RECURSO aplicadas ao trabalho e ao tempo ocultam todo tipo de concepções de trabalho e de tempo que existem em outras culturas e em algumas subculturas de nossa própria sociedade: a ideia de que o trabalho pode ser um jogo, que a inatividade pode ser produtiva, de que muito do que chamamos de trabalho ou não serve a um efeito claro ou não tem nenhuma utilidade.



Lakoff, George (1941- ) e Johnson, Mark (1949- )


Metáforas de la vida cotidiana. Traducción de Carmen González Marín. Madrid: Ediciones Cátedra, 1991. p 105-108 (tradução minha)



domingo, 19 de agosto de 2018

Sobre o escravismo


O emprego de escravos tende a afastar homens livres do trabalho, que é visto como ocupação indigna. Ao lado da classe superior, que não trabalha, proprietária de escravos, forma-se uma classe média que também não trabalha. Devido ao emprego de escravos, a sociedade é forçada a adotar uma estrutura de trabalho relativamente simples, servindo-se de técnicas que podem ser utilizadas pelos escravos e, que, por essa razão, tornam-se relativamente impermeáveis à mudança, ao melhoramento e à adaptação a novas situações. A reprodução do capital fica vinculada à reprodução dos escravos e, dessa maneira, direta ou indiretamente, ao sucesso de campanhas militares, à produção de reservas de escravos, e nunca é passível de cálculo no mesmo grau que numa sociedade na qual não é a pessoa inteira que se compra por toda a vida, mas serviços especiais de trabalho de indivíduos que, socialmente, são mais ou menos livres.
Só contra esse pano de fundo podemos compreender a importância, para todo o desenvolvimento da sociedade ocidental, do fato de que, durante o lento crescimento da população na Idade Média, os escravos estivessem ausentes ou desempenhassem apenas papel secundário. Desde o início, por conseguinte, a sociedade foi colocada em um curso diferente do que o adotado na Antiguidade romana. E ficou sujeita a regularidades diferentes. As revoluções urbanas dos séculos XI e XII, a gradual liberação de trabalhadores desalojados da terra – os burgueses- da submissão ao senhor feudal, constituíram as primeiras manifestações desses fatores. Daí em diante, ocorreu a gradual transformação do Ocidente numa sociedade onde um número sempre maior de pessoas podia ganhar a vida através de ocupações. O papel muito pequeno desempenhado pela importação de escravos e de mão de obra escrava dava aos trabalhadores, mesmo como classe inferior, um grande peso social. Quanto mais prosseguia a interdependência das pessoas e, por conseguinte, mais terra e sua produção eram incluídas na circulação do comércio e da moeda, mais dependentes as classes superiores, que não trabalhavam, os guerreiros, ou nobreza se tornavam das classes inferior e média, que trabalhavam, e mais estas últimas ganhavam em poder social. A ascensão das classes burguesas para a classe superior constituiu expressão desse modelo. De forma exatamente oposta àquela por que, na sociedade escravista antiga, homens livres da cidade eram expulsos da força de trabalho, na sociedade ocidental, como resultado de homens livres, a crescente interdependência de todos finalmente atraiu até mesmo membros das classes altas, que não trabalhavam, em números sempre maiores, para a divisão do trabalho. O próprio desenvolvimento do Ocidente, a evolução da moeda para aquela forma específica de “capital” que a caracteriza, pressupõem a ausência de trabalho escravo e o desenvolvimento do trabalho livre.


Elias, Norbert (1897-1990)


O processo civilizador. Formação do estado e civilização. Volume 2. Tradução da versão inglesa de Ruy Jungmann. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993.p 56.


Ninguém sabe tudo


Um é menos hábil, outro mais, para cada trabalho. E não há ninguém que seja sábio em tudo.




Teógnis de Mégara (séc. VI a.C.)


Hélade, antologia da cultura grega. Organizada e traduzida do original por Maria Helena da Rocha Pereira. 5edição. Coimbra: Instituto de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1990, p144.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

A composição de uma poesia


Todos os poetas conheceram o tormento, o espanto e o gozo. A admiração diante de uma página grandiosa de poesia nunca se dirige à sua espantosa habilidade, mas à novidade da descoberta que contém. Mesmo ao sentirmos um alvoroço de alegria ao encontrarmos ligados com propriedade um adjetivo e um substantivo que antes nunca foram vistos juntos, o que nos comove não é o espanto pela elegância da coisa, pela prontidão do engenho, pela habilidade técnica do poeta, e sim a admiração pela nova realidade trazida à luz.



Quanto a mim, a composição de uma poesia acontece de um modo que eu nunca acreditaria – se a experiência não me fizesse vê-la. Movendo-me em torno de uma situação sugestiva informe, vou bramindo de mim para mim um pensamento, encarnado num ritmo aberto, sempre o mesmo. As palavras diferentes e as diferentes ligações vão colorindo e caracterizando a nova concentração musical. E o mais difícil está feito. Só falta agora voltar a esses dois, três, quatro versos, já nesse estágio quase sempre definitivos e iniciais e atormentá-los, interrogá-los, ajeitar-lhes os numerosos desdobramentos, até alcançar um que fique bem. Nesse núcleo de que falei, está a poesia toda por ser extraída. E cada verso que se acrescenta vai determinando sempre melhor este núcleo e exclui um número sempre maior de enganos da fantasia. Até o ponto em que todas as possibilidades intrínsecas do ponto de partida se acham caracterizadas e desenvolvidas na medida das minhas forças; aos poucos, ao correr da pena, passaram a formar-se novos núcleos rítmicos identificáveis nas varias ‘imagens’ individuais da narrativa; e é de má vontade, pois o interesse já está no fim, que chego ao último dos versos conclusivos, verso quase sempre descontraído, descansado, ligado ao início e a recapitular, por alusão, os vários núcleos. Seria a cristalização de Stendhal? Tenho diante de mim um conjunto rítmico – cheio de cores, de mudanças, de impulsos e descontração –onde os vários momentos de descoberta, de avanço – os núcleos, enfim- se alternam de lugar, se iluminam, ativados perenemente pelo sangue rítmico que flui por toda parte. Depois, fico fumando e tento pensar em outra coisa, mas, estimulado pelo segredo, acabo por sorrir.


Pavese, Cesar (1908 -1950)


O ofício de viver, diário de 1935-1950. Tradução de Homero Freitas de Andrade. Editora Bertrand Brasil S.A., 1988.




domingo, 12 de agosto de 2018

Roteiro para duas mãos


Precisavam de alguém que datilografasse rápido; foi assim que emprestei as minhas mãos. O filme, um longa com mais de duas horas de duração, era sobre a vida de Jack Kerouac, as viagens que ele fez pelos Estados Unidos no fim dos anos 1940 e como escreveu o livro em que elas são contadas. Além de ter atravessado o território americano de costa a costa, você sabe, e descido até o México, sozinho ou na companhia de Neal Cassady, Kerouac ficou famoso por ter datilografado On the road em apenas três semanas, em um único rolo de papel, durante uma espécie de transe. “Estamos atrás de uma batida ágil, frenética “, disse o produtor ao me entrevistar, “uma batida que dê conta da vibração do Kerouac, do ritmo feroz e ao mesmo tempo maleável que só as mãos dele conseguiam ter.” A conversa foi no escritório da produtora. Fiquei olhando para o sujeito, sem entender bem o alcance daquela descrição. Na época -estávamos em 2000- eu não tinha lido quase nada de Kerouac, mas fiquei animado de cara. Eles acertaram em cheio. Minhas mãos estavam prontas para isso. Minhas mãos, até então desperdiçadas, com seus seiscentos toques por minuto.
[...] Nas primeira vezes em que gravei, o diretor me interrompia a todo instante. “Nunca vi nada igual”, dizia, invadindo a cena. “Mas rapidez aqui não basta. Seus dedos estão duros demais, calibrados demais, você está parecendo um soldado...Tem que amolecer esse punho, rapaz.” Então chamava o assistente, pedia uma cópia do texto e fazia ali mesmo umas marcações, onde eu devia mudar de ritmo. ”Você tem de criar uma oscilação, uma melodia”. E balançava os dedos no ar, simulando o andamento.
[...] Dizem que Kerouac, nos melhores dias, chegava a bater quinze mil palavras, trabalhando durante seis horas, o que dá mais ou menos trezentos toques por minuto. Imagino que ele pudesse alcançar os quinhentos toques, bem menos do que eu era capaz, mas, como eu estava meio enferrujado, a gente acabava ficando no mesmo nível. Eu gravava uma música dos anos 1950, de alguém que Kerouac ouvia, Duke Ellington ou George Shearing, por exemplo, botava para tocar no walkman, mergulhava naquele som. Kerouac considerava Shearing um deus. Hoje, vendo o modo como Shearing deslizava os dedos de cego pelo piano, estou certo que Kerouac se inspirava nele para bater à máquina, tentando injetar nas tônicas a batida do jazz.

Castro, Marcílio França ( 1967- )


Histórias naturais: ficções. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. p 13-15

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Um dogma desastroso


Uma estranha loucura apossa-se das classes operárias das nações onde impera a civilização capitalista. Esta loucura tem como consequência as misérias individuais e sociais que, há dois séculos, tortura a triste humanidade. Esta loucura é o amor pelo trabalho, a paixão moribunda pelo trabalho, levada até o esgotamento das forças vitais do indvíduo e de sua prole.



Lafargue, Paul (1842-1911)

O direito à preguiça. Tradução de J. Teixeira Coelho. São Paulo: Hucitec; Unesp, 1999. p 63.

Escritório 1

 Lars Tunbjörk ( 1956-2015)

Montagem final

Resultado de imagem para david suter harper magazine
David Suter (1949- )

sábado, 4 de agosto de 2018

Tecelões

O meu trabalho e de todos os tecelões é duma forma igual; nós trabalhamos umas oito horas direto, sem intervalo de descanso. Antes, eu trabalhava com doze máquinas, depois passaram para dezoito, agora tô com vinte e quatro; vai uma distância daqui até lá na outra esquina. Tem gente que está com trinta teares. Então, com esse aumento bárbaro de máquinas, a gente não para, a gente come andando, come a merenda que levamos andando, sanduíche, café, olhando a máquina que pára; a gente deixa assim em cima duma caixinha que tem, ou d’uma máquina que tiver parada, e vai lá e toca aquela máquina que parou, vai lá botar ela pra rodar, volta pra cima e olhando as outras, entendeu? A gente, quando há necessidade de ir no banheiro, então a gente vai, o máximo que pode passar lá fora é cinco minutos, três minutos, não pode passar mais do que isso. Isso o trabalho mesmo exige que nós fazemos isso, porque nós ganhamos pela produção e não podemos deixar o tear, porque não vai ficar ninguém lá tomando conta...E a responsabilidade é demais, demais mesmo, perfeição do pano, olhar, conhecer o defeito da máquina quando dá falha no tecido, no pano. O fio arrebenta muito, muito mesmo, a gente não consegue, sai d’uma, pega na outra, num anda um pouquinho torna a arrebentar, o tear para mesmo.

           

Cândido Pereira, Vera Maria



            O coração da fábrica: estudo de casos entre operários têxteis.      Rio de Janeiro:Editora Campus,1979.


Seu talento havia morrido


Ele perdera a magia. O impulso se esgotara. Ele nunca havia fracassado no teatro, tudo que fizera sempre fora vigoroso e bem-sucedido e então aconteceu esta coisa terrível: ele não conseguia representar. Subir ao palco tornou-se uma agonia. Em vez da certeza de que teria um desempenho maravilhoso, sabia que ia fracassar. A coisa aconteceu três vezes seguidas, e na última vez ninguém mostrou interesse, ninguém foi. Ele não conseguia se comunicar com a plateia. Seu talento havia morrido.


Roth, Philip ( 1933-2018)



A humilhação. Tradução de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p7.

Caixeiro-viajante


Oh, meu Deus, pensou, que trabalho tão cansativo escolhi! Viajar, dia sim, dia não. É um trabalho muito mais irritante do que o trabalho do escritório propriamente dito, e ainda por cima há ainda o desconforto de andar sempre a viajar, preocupado com as ligações dos trens, com a cama e com as refeições irregulares, com conhecimentos casuais, que são sempre novos e nunca se tornam amigos íntimos.
[...] Se não tivesse de me aguentar, por causa dos meus pais, há muito tempo que me teria despedido; iria ter com o patrão e lhe falar exatamente o que penso dele. Havia de cair ao comprido em cima da secretária! Também é um hábito esquisito, esse de se sentar a uma secretária em plano elevado e falar para baixo para os empregados, tanto mais que eles têm de aproximar-se bastante, porque o patrão é ruim de ouvido. Bem, ainda há uma esperança; depois de ter economizado o suficiente para pagar o que os meus pais lhe devem — o que deve levar outros cinco ou seis anos —, faço-o, com certeza. Nessa altura, vou me libertar completamente.
[...] Eu bem sei que os caixeiros-viajantes não são muito bem vistos no escritório. As pessoas pensam que eles levam uma vida estupenda e ganham rios de dinheiro. Trata-se de um preconceito que nenhuma razão especial leva a reconsiderar. Mas o senhor bem sabe que o caixeiro-viajante, que durante todo o ano raramente está no escritório, é muitas vezes vítima de injustiças, do azar e de queixas injustificadas, das quais normalmente nada sabe, a não ser quando regressa, exausto das suas deslocações, e só nessa altura sofre pessoalmente as suas funestas consequências; para elas, não consegue descobrir as causas originais.

Kafka, Franz (1883-1924)



A Metamorfose. Universidade da Amazônia. Núcleo de Educação à Distância