terça-feira, 22 de novembro de 2022

Sem descanso

Descanso! Eu achava que conhecia o significado dessa palavra, mas estava enganado. Tinha descansado a vida toda e não sabia. Agora, porém, ficar sentado meia hora sem fazer nada, nem mesmo pensar, teria sido a coisa mais prazerosa do mundo. Por outro lado, é uma revelação. De agora em diante, poderei entender a vida dos trabalhadores. Eu não sonhava que o trabalho pudesser ser algo tão terrível. Das cinco e meia da manhã às dez da noite, sou escravo de todos e não tenho um único instante para mim, exceto quando consigo roubar um tempinho ao anoitecer, no término do segundo quarto de vigia. Se consigo parar um minuto para contemplar o oceano cintilante à luz do sol, ou para observar um marujo subir até a carangueja ou equilibrar-se no gurupés, sei que logo escutarei aquela voz abominável dizendo “Ei, Hump, não te faz de morto. Tô de olho”.

 

 

 

                                                                                                                Jack London (1876-1916)

 

O Lobo do Mar; tradução Daniel Galera. Rio de Janeiro: Zahar, 2015, p.80.

 

O pequeno engraxate e o prego


 Era sobre uma pesquisa que tinha como objetivo entender a perspectiva

das crianças que viviam nas ruas da cidade [Brasília]. A equipe do projeto

teria entregue a cada menino e menina uma máquina fotográfica, dessas

feitas de lata, e pedira que eles registrassem aquilo que os oprimia. Como

era esperado, surgiram fotos de policiais, garçons e vendedores, figuras

responsáveis por enxotá-los dos lugares por onde costumam circular. Mas

um conjunto de imagens destoava de tudo isso – eram fotografias de uma

parede vazia, com um prego espetado no meio. Uma vez que as imagens

não faziam sentido para a equipe de pesquisadores, chamaram o menino

para conversar sobre o assunto. Ao contrário do que pensavam, ele havia

entendido o que queriam e explicou seu recorte: era engraxate, mas não

tinha autorização para trabalhar em qualquer lugar, por isso alugava

aquele espaço e o prego onde podia pendurar sua caixa. Era aquilo que o

oprimia, a exploração do trabalho.

Regina Dalcastagnè (1967-)

 

O prego e o rinoceronte. Porto Alegre: Zouk, 2021. p.15-16.

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

Destrancar uma fechadura

 A curiosidade me levava a pedir minúcias.

_Ó Gaúcho, como é que você consegue destrancar uma fechadura?

O paciente indivíduo não se espantava de minha ignorância, mencionava a caneta, usava expressões técnicas obscuras. Aproximava-me do rosto o indicador e o polegar, manejava delicadamente uma pinça imaginária, introduzia-a num buraco, segurava com ela a ponta de uma chave, ia movendo a mão - assim – para os lados, avançava depois os dedos para os meus olhos. Falava em abundância e a palavra e o gesto davam-me ideia viva da operação: vencido o obstáculo, a chave, impelida para diante, caía.

_Mas isso faz barulho, Gaúcho.

_Não senhor. Eu estiro um número do “Jornal do Brasil” por baixo da porta. Puxo o jornal e trago a chave. Se ela não vier, meto a gazua na fechadura.

Explicava a maneira de cortar uma vidraça, com diamante. Dava um murro no vidro, que se deslocava, batia sem rumor em cima do “Jornal do Brasil”.

_Ó Gaúcho, informei-me estranhando a repetição, por que essa preferência? Outro jornal não serve?

O ladrão refletiu e esclareceu muito grave:

_Vossa mercê compreende: o “Jornal do Brasil” tem mais páginas, é mais grosso.

Vanderlino, na esteira próxima, divertia-se. E Gaúcho, exposta essa utilidade nova da imprensa, estendia-se por um de seus numerosos casos.

 

 

Graciliano Ramos (1892-1953)

 

Memórias do cárcere. volume 1. Rio de Janeiro: Record. p 96

Minha maneira de trabalhar

 Entrevistador: poderia o senhor dizer-nos, antes de mais nada, algo a respeito de sua maneira de trabalhar?

Aldous Huxley: trabalho com regularidade, pela manhã e depois um pouquinho antes do jantar. À noite, prefiro ler. Em geral, trabalho quatro ou cinco horas por dia. Trabalho tanto quanto posso, até sentir que estou ficando rançoso. Às vezes, quando empaco, ponho-me a ler - ficção, psicologia ou história, não importa muito o que – não para tomar emprestados ideias ou materiais mas simplesmente para recomeçar de novo. Quase qualquer coisa fará esse truque.

Entrevistador: reescreve muito as suas obras?

Aldous Huxley: em geral, escrevo tudo muitas vezes. Todas as minhas ideias são derivadas. E corrijo muito cada página ou as reescrevo, à medida que prossigo.

 

 

 

Aldous Huxley (1894-1963)

 

Escritores em ação. São Paulo: Paz e Terra, p 216

 

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Canção do sal

Trabalhando o sal

É amor, o suor que me sai

Vou viver cantando

O dia tão quente que faz


Homem ver criança 

Buscando conchinhas no mar

Trabalho o dia inteiro

Pra vida de gente levar.


Água vira sal lá na salina

Quem diminuiu água do mar

Água enfrenta o sol lá na salina

Sol que vai queimando até queimar


Trabalhando o sal  

Pra ver a mulher se vestir

E ao chegar em casa 

Encontrar a família a sorrir


Filho vir da escola 

Problema maior, estudar

Que é pra não ter meu trabalho

E vida de gente levar.


Milton Nascimento ( 1942-)




Cantam Gal Costa e Milton Nascimento