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domingo, 21 de maio de 2023

O que ele chamava de trabalho

 O trabalho era o fundamento de sua ética, que ele sentia como um sacro dever, mas que compreendia num sentido mais amplo. Era trabalho tudo e apenas aquilo que traz lucros sem comprometer a atividades lícitas, igualmente, por exemplo, o contrabando, o furto, a trapaça (mas não o roubo: não era um violento). Considerava, todavia, censuráveis, porque humilhantes, todas as atividades que não comportavam iniciativa ou risco, ou que pressupunham uma disciplina e uma hierarquia: toda relação de trabalho, toda prestação de serviço, conquanto bem retribuída, ele a assimilava totalmente ao “trabalho servil”. Mas não era trabalho servil arar o próprio campo, ou vender falsas antiguidades no porto aos turistas.

Quanto às atividades mais elevadas do espírito, ao trabalho criativo, demorei a compreender que o grego se dividia. Tratava-se de opiniões delicadas, que mereciam análise caso a caso: era lícito, por exemplo, perseguir o sucesso em si mesmo, ainda que vendendo falsa pintura ou subliteratura, ou ainda que prejudicando o próximo; censurável obstinar-se em perseguir um ideal não lucrativo; pecaminoso retirar-se do mundo em contemplação; era lícito, todavia, aliás recomendável, o caminho de quem se dedica a meditar e adquire sabedoria, contanto que não considere obrigação receber gratuitamente o próprio pão da Sociedade Civil: a sabedoria é também uma mercadoria e pode e deve ser trocada. 

 

 

 Primo Levi (1919-1989)

 

A trégua. Tradução de Marco Lucchesi. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 43-44.

 

terça-feira, 17 de julho de 2018

Da escrita obscura


Acho que não se deveria escrever de modo obscuro, pois um texto tem muito mais valor, e muito mais esperança de ser difundido e se tornar eterno, quanto melhor for compreendido e quanto menos se prestar a interpretações equívocas.
[...] Além disso, falar ao próximo numa linguagem que ele não pode entender pode ser um mau hábito de alguns revolucionários, mas não é realmente um instrumento revolucionário: ao contrário, é um antigo artifício repressivo, conhecido de todas as Igrejas, vício típico de nossa classe política, fundamento de todos os impérios coloniais. É um modo sutil de impor a própria hierarquia: quando o padre Cristóforo diz “Omnia munda mundis” (aos puros, tudo parece puro) em latim a frei Fazio, que não sabia latim, este último, “ao ouvir aquelas palavras carregadas de um sentido misterioso, e proferidas tão resolutamente [...] achou que nelas devia estar contida a solução de todas as suas dúvidas. Então se acalmou e disse: ‘Chega! Ele sabe mais do que eu’.”

Levi, Primo (1919-1987)




            O ofício alheio. Tradução de Silvia Massimini Felix. São Paulo: Editora Unesp, 2016, p 55 e 60



segunda-feira, 21 de maio de 2018

Trabalho bem feito

Observei com freqüência em alguns companheiros meus (às vezes até em mim mesmo) um fenômeno curioso: a ambição do “trabalho bem feito” está tão enraizada que impele a “fazer bem” mesmo trabalhos adversos, nocivos aos seus e à sua parte, tanto que é preciso um esforço consciente para executá-los “mal”. A sabotagem do trabalho nazista, além de ser perigosa, comportava inclusive a superação de resitências internas atávicas. O pedreiro de Fossano que me salvou a vida, e que descrevi em É isto um homem? e em “Lilith”, detestava a Alemanha, os alemães, sua comida, sua maneira de falar, sua guerra: mas, quando o puseram para erguer muros de proteção contra as bombas, fazia-os corretamente, sólidos, com tijolos bem assentados e com toda a argamassa que era necessária; não em reverência às ordens, mas por dignidade profissional.
[...] Em Um dia na vida de Ivan Denissovitch, Soljenitsin descrve uma situação quase idêntica: Ivan, o protagonista, condenado sem nenhuma culpa a dez anos de trabalho forçado, se compraz em erguer uma parede com perfeição, constatando depois que foi bem sucedido [...] quem assistiu a um célebre filme, A ponte do rio Kwai, recordará o zelo absurdo com que o oficila ingles prisioneiro dos japoneses se obstina em construir para eles uma audaciosíssima ponte de madeira, e se escandaliza quanndo se dá conta de que os sapadores ingleses a minaram. Como se vê, o amor pelo trabalho bem feito é uma virtude fortemente ambígua. Animou a Michelangelo até seus últimos dias; mas também Stangl, o diligentíssimo carniceiro de Treblinka, replica com irritação à sua entrevistadora: “tudo aquilo que fazia por minha livre vontade tinha de fazer da melhor forma que podia. Fui criado assim.” Da mesma virtude se orgulhava Rudolf Höss, o comandante de Auschwitz, quando narra o trabalho criativo que o induziu a inventar as câmaras de gás.

Levi, Primo (1919-1987)

Os afogados e os sobreviventes. Tradução de Luiz Sérgio Henriques. 3edição. Rio de Janeiro/São Paul: Paz&Terra, 2016. p 99-100

Trabalho nos campos de concentração


Nos primeiros Lager, quase contemporâneos da conquista do poder por Hitler, o trabalho era puramente persecutório, praticamente inútil para fins produtivos. Mandar gente desnutrida remover turfa ou quebrar pedra só servia como objetivo terrorista. De resto, para a retórica nazista e fascista, herdeira nisso da retórica burguesa, “o trabalho enobrece”, e, portanto, os ignóbeis adversários do regime não são dignos de trabalhar no sentido usual do termo. Seu trabalho deve ser aflitivo, não deve abrir espaço para a competência profissional. Deve ser aquele dos animais de carga, puxar, empurrar, levar peso, vergar sobre a terra. Também esta, uma violência inútil: talvez útil apenas para quebrar as resistências atuais e punir as resistências passadas. As mulheres de Ravensbrück narram jornadas intermináveis transcorridas durante o período de quarentena (ou seja, antes do enquadramento das brigadas de trabalho em fábrica) a remover areia das dunas: em círculos, sob o sol de julho, cada deportada devia deslocar a areia de seu monte para o monte da vizinha da direita, num circuito sem meta nem fim, uma vez que a areia voltava para o lugar de onde era retirada.
Mas é duvidoso que esse tormento do corpo e do espírito, mítico e dantesco, tivesse sido imaginado para prevenir a formação de núcleos de autodefesa ou de resistência ativa: os SS dos Lager eram antes brutos obtusos do que demônios sutis. Tinham sido educados para a violência: a violência corria em suas veias, era normal, óbvia. Transbordava de seus rostos, de seus gestos, de sua linguagem. Humilhar, fazer o “inimigo“ sofrer era seu ofício de cada dia: não raciocinavam sobre isso, não tinham segundas intenções: a intenção era aquela. Não quero dizer que fossem feitos de uma substância humana perversa, diferente da nossa (entre eles também havia os sádicos, os psicopatas, mas eram poucos): simplesmente tinham sido submetidos por alguns anos a uma escola em que a moral corrente fora invertida. Num regime totalitário, a educação, a propaganda e a informação não encontram obstáculos: têm um poder ilimitado, uma ideia da qual dificilmente pode fazer quem nasceu e viveu num regime pluralista.

 Levi, Primo (1919-1987)

Os afogados e os sobreviventes. Tradução de Luiz Sérgio Henriques. 3 edição. Rio de Janeiro/São Paul:Paz&Terra, 2016. p 98-99

domingo, 20 de maio de 2018

Quando aprendi a soldar

...eu era tímido por natureza mas na Lancia, um pouco pela companhia, e pouco depois de me colocarem na manutenção, quando aprendi a soldar, me tornei mais ousado e ganhei confiança: sim, soldar foi importante, mas não saberia dizer por quê. Talvez porque não é um trabalho natural, especialmente a soldagem autógena: não vem da natureza, não se parece com nenhum outro trabalho, é preciso que a cabeça, as mãos e os olhos aprendam cada um por conta própria, sobretudo os olhos, porque quando você põe na frente deles aquele capacete para se proteger da luz só se vê o breu e no breu a minhoquinha acessa do cordão de soldadura que vem na frente, e deve vir sempre na frente sempre na mesma velocidade; não se vem nem a próprias mãos, mas, se você não fizer tudo direitinho e errar, nem que seja um pouquinho, em vez de uma soldadura o resultado é um buraco. O fato é que depois que ganhei confiança com a solda, depois confiei em tudo, até na maneira de caminhar.


Primo Levi (1919-1987)

A chave estrela. Tradução de Maurício Santana Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p142


Menos conhecida que a Antártida

Se excluirmos os instantes prodigiosos e singulares que o destino nos pode dar, amar o próprio trabalho (o que infelizmente é privilégio de poucos) constitui a melhor aproximação concreta da felicidade na terra: mas esta é uma verdade que não muitos conhecem. Essa interminável região, a região da lida, do batente, do ganha-pão, enfim do trabalho cotidiano, é menos conhecida que a Antártida, e, por um triste e curioso fenômeno, quem mais fala dela, e com mais clamor, são justamente aqueles que menos a percorreram. Para exaltar o trabalho, mobiliza-se nas cerimônias oficiais uma retórica insidiosa, cinicamente fundada na consideração de que um elogio e uma medalha custam bem menos do que um aumento de salário, e rendem mais; mas também existe a retórica do sinal oposto, não cínica, mas profundamente estúpida, que tende a denegri-lo, a pintá-lo como vil, como se o trabalho, próprio ou alheio, pudesse ser dispensado, não só numa Utopia, mas hoje e aqui: como se quem sabe trabalhar fosse por definição um servo, e como se, ao contrário, quem não sabe trabalhar ou sabe mal ou não quer fosse por isso mesmo um homem livre. É uma verdade melancólica que muitos trabalhos não são agradáveis, mas é nocivo entrar em campo cheio de ódio preconcebido: quem faz isso se condena por toda a vida a odiar não só o trabalho, mas a si mesmo e ao mundo. É possível e se deve lutar para que o fruto do trabalho permaneça nas mãos de quem o faz, para que o próprio trabalho não seja uma pena; mas o amor ou respectivamente o ódio pela obra são um dado interno, originário, que depende mais da história de cada indivíduo do que, como se costuma acreditar, das estruturas produtivas dentro das quais o trabalho se desenvolve.

 Levi, Primo (1919-1987)

A chave estrela. Tradução de Maurício Santana Dias.São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p 91-92