domingo, 20 de maio de 2018

Menos conhecida que a Antártida

Se excluirmos os instantes prodigiosos e singulares que o destino nos pode dar, amar o próprio trabalho (o que infelizmente é privilégio de poucos) constitui a melhor aproximação concreta da felicidade na terra: mas esta é uma verdade que não muitos conhecem. Essa interminável região, a região da lida, do batente, do ganha-pão, enfim do trabalho cotidiano, é menos conhecida que a Antártida, e, por um triste e curioso fenômeno, quem mais fala dela, e com mais clamor, são justamente aqueles que menos a percorreram. Para exaltar o trabalho, mobiliza-se nas cerimônias oficiais uma retórica insidiosa, cinicamente fundada na consideração de que um elogio e uma medalha custam bem menos do que um aumento de salário, e rendem mais; mas também existe a retórica do sinal oposto, não cínica, mas profundamente estúpida, que tende a denegri-lo, a pintá-lo como vil, como se o trabalho, próprio ou alheio, pudesse ser dispensado, não só numa Utopia, mas hoje e aqui: como se quem sabe trabalhar fosse por definição um servo, e como se, ao contrário, quem não sabe trabalhar ou sabe mal ou não quer fosse por isso mesmo um homem livre. É uma verdade melancólica que muitos trabalhos não são agradáveis, mas é nocivo entrar em campo cheio de ódio preconcebido: quem faz isso se condena por toda a vida a odiar não só o trabalho, mas a si mesmo e ao mundo. É possível e se deve lutar para que o fruto do trabalho permaneça nas mãos de quem o faz, para que o próprio trabalho não seja uma pena; mas o amor ou respectivamente o ódio pela obra são um dado interno, originário, que depende mais da história de cada indivíduo do que, como se costuma acreditar, das estruturas produtivas dentro das quais o trabalho se desenvolve.

 Levi, Primo (1919-1987)

A chave estrela. Tradução de Maurício Santana Dias.São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p 91-92

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