segunda-feira, 21 de maio de 2018

Na fábrica da Renault


Carta a Thevenot

[...] Há dois fatores nessa escravidão: a velocidade e as ordens. A velocidade: para “vencer” é preciso repetir um movimento após outro a um ritmo que, sendo mais rápido que o pensamento, proíbe não só a reflexão como a fantasia. Diante da sua máquina é preciso matar sua alma por oito horas por dia, seu pensamento, seus sentimentos, tudo. Se a gente estiver irritado, triste, desgostado, é preciso engolir, reprimir tudo dentro de si, irritação, tristeza ou desgosto: eles diminuiriam o ritmo de trabalho. E também a alegria. As ordens: desde o momento em que se bate o ponto na entrada até o momento em que se bate o ponto na saída do trabalho, a gente pode receber, a qualquer momento, todo tipo de ordem. E sempre é preciso se calar e obedecer. A execução da ordem pode ser penosa ou perigosa, a ordem pode até não ser executável; ou então dois chefes podem dar ordens contraditórias; não importa, é preciso calar e ceder. Dirigir a palavra a um chefe, mesmo por um motivo indispensável, mesmo se é uma boa pessoa (até as boas pessoas têm momentos de humor) é sempre se expor à repressão e quando isso acontece, é preciso ainda se calar. Quanto aos seus próprios momentos de nervosismo e mal humor, é preciso engoli-los, eles não podem se traduzir nem em palavras nem em gestos, pois os gestos são a cada instante determinados pelo trabalho. Esta situação faz com que o pensamento murche, se retraia, como a carne se retrai diante de um bisturi. Não se pode ser “consciente”. Tudo isto se refere ao trabalho não qualificado, bem entendido. (Sobretudo ao das mulheres). E no meio de tudo isso um sorriso, uma palavra de bondade, um instante de contato humano têm mais valor que as mais dedicadas amizades entre os muito ou pouco privilegiados. É só lá que se conhece a fraternidade humana. Mas há pouco dela, muito pouco. Em geral, mesmo as relações entre camaradas refletem a dureza que domina tudo lá dentro. Chega, falei demais. Vou escrever volumes sobre tudo isso.

Weil, Simone (1909-1943)

 La condition ouvrière. Tradução minha

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