Mostrando postagens com marcador Robert Linhart. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Robert Linhart. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

O medo é uma engrenagem da fábrica


O medo faz parte da fábrica, é uma engrenagem vital dela.
Para começar, ele tem o rosto de todo esse dispositivo de autoridade, de vigilância e de repressão que nos cerca: guardas, chefes de equipe, contramestres, chefes de setor. O chefe de setor, principalmente. É uma especialidade da Citroen: um chefe de pessoal local que cobre apenas algumas oficinas. Um ‘tira’ oficial, que controla os guardas, mantém em dia as sanções e suspensões, preside as demissões. De calça e paletó, nada tem a ver com a produção: exerce uma função meramente repressiva. O nosso, Junot, como acontece frequentemente, é um antigo militar colonial reformado que entrou para a Citroen. Alcoólatra, cara congestionada, trata os imigrantes como se fossem os indígenas dos “velhos e bons tempos”: com desprezo e raiva. Ainda por cima, imagino, com uma ideia de vingança: fazê-los pagar a perda do Império. Quando anda pela oficina, cada um retifica mais ou menos a postura e finge se concentrar completamente no seu posto; as conversas se interrompem bruscamente e só se escuta o barulho das máquinas. E se você é chamado ao escritório, ou se um contramestre faz um sinal que deseja lhe falar, ou mesmo se um guarda lhe interpela de surpresa no pátio, você sente um pequeno aperto no coração. Tudo isso é conhecido: dentro da fábrica, você está numa sociedade declaradamente policial, à beira da ilegalidade se você é encontrado, mesmo que apenas a alguns metros de seu posto de trabalho ou em um corredor, sem um formulário devidamente assinado por um superior, ou em falta por um defeito de produção, “demissível” de imediato por um empurrão, sujeito à punição por um atraso de alguns instantes ou por uma palavra de impaciência a um chefe de equipe, e mil outras coisas que pairam suspensas sobre a sua cabeça e sobre as quais você nem sonha mas que os guardas, contramestres, chefes de setor e tutti quanti não se esquecem jamais.
Mas o medo é mais que isso: você pode muito bem passar uma jornada inteira sem ver nenhum chefe (porque estão trancados nos seus escritórios, cochilando sobre a papelada ou porque uma reunião imprevista livrou-o milagrosamente deles por algumas horas) e apesar disto você sente que a angústia está sempre presente, no ar, no modo de ser dos que lhe cercam, em você mesmo. Sem dúvida, isso se deve, em parte, ao fato conhecido por todos de que o controle oficial da Citroen é apenas uma parte visível do sistema de policiamento da fábrica. Temos entre nós informantes de todas as nacionalidades e, sobretudo, o sindicato da empresa, o CFT, um bando de fura greves e de falsificadores de eleições. Esse sindicato amarelo é a menina dos olhos da direção: aderir a ele facilita a promoção da chefia e, com frequência, o chefe de setor obriga os trabalhadores imigrantes a aderirem a ele, sob a ameaça de demissão ou de expulsão dos alojamentos da empresa.
Mas mesmo isso não é suficiente para definir completamente nosso medo. Ele é feito de alguma coisa mais sutil e mais profunda. Ele é intimamente ligado ao próprio trabalho.
A linha de montagem, o desfile dos carros, a minutagem dos gestos, todo esse mundo de máquinas no qual a gente se sente a todo momento ameaçado de ‘perder o pé”, de não conseguir, de fracassar, de ser ultrapassado, de ser rejeitado. Ou ferido. Ou morto. O medo supura a fábrica por que a fábrica, no seu nível mais elementar, mais perceptível ameaça permanentemente os homens que ela utiliza. Quando não há chefes à vista e quando nos esquecemos dos delatores, são os carros que nos vigiam pelo seu deslocamento ritmado. São as próprias ferramentas que nos ameaçam à menor desatenção, são as engrenagens da linha de montagem que nos chamam à ordem, brutalmente. A ditadura dos possuidores aqui se exerce, primeiramente, pelo poder total dos objetos.
E quando a fábrica rosna, e as empilhadeiras correm nos corredores, e as pontes rolantes soltam as carrocerias com estrondo, e as ferramentas urram em cadência e que a cada poucos minutos as linhas cospem um novo carro que a esteira rolante carrega, quando tudo isso funciona sozinho e que o barulho acumulado de mil operações repetidas sem interrupção se repercute permanentemente em nossas cabeças, nós nos lembramos que somos homens, e o quanto somos mais frágeis que as máquinas.
Susto do grão de areia.


Linhart, Robert (1944- )


L’établi. Paris: Les éditions de minuit, 1978. p. 66-67. Tradução minha.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

“Só“ uma depressão nervosa


As carroçarias, os para-lamas, as portas, as capotas são lisas, brilhantes, multicolores. Nós, os operários, somos cinzentos, sujos, esfarrapados. O objeto sugou a cor, não ficou nada para nós. Ele resplandece com todo brilho, o carro que está sendo fabricado. Avança lentamente através das etapas do seu revestimento, enriquecendo-se de acessórios e de cromos, seu interior guarnecido de tecido macio; todas as atenções são para ele. Zomba de nós. Para ele, só para ele, as luzes da grande linha de montagem. Nós, os trabalhadores, estamos envolvidos numa noite invisível.
Como não ter desejo de saquear? Quem, dentre nós, não sonha às vezes em vingar-se desses carros insolentes, tão pacíficos, tão lisos, tão lisos?
De vez em quando alguém não resiste e entra em ação. Christian contou-me a história de um sujeito que fez isso aqui mesmo, na oficina 85, pouco antes da minha chegada. Todo mundo ainda se lembra.
Era um negro, muito forte, que falava francês com dificuldade, mas que conseguia exprimir-se de qualquer jeito. Seu trabalho consistia em aparafusar uma peça do painel de controle com uma chave de fenda. Cinco parafusos a colocar, em cada carro. Numa sexta feira, à tarde, estava no quingentésimo parafuso do dia. De repente, começou a gritar e precipitou-se sobre os para-lamas dos carros, brandindo sua chave de fenda como um punhal. Dilacerou cerca de uma dezena de carroçarias antes que um grupo de blusões brancos e azuis acorresse às pressas para dominá-lo e levá-lo, ofegante e gesticulando, até a enfermaria.
“Que é que aconteceu com ele? ”
_. Deram uma injeção nele e uma ambulância levou ele para o asilo.
_. Nunca mais voltou?
_. Voltou. Ficou no asilo umas três semanas. Depois disso, mandaram ele de volta. Dizendo que não era grave, só uma depressão nervosa. Então a Citroen aceitou ele de novo.
_. Na linha?
_. Não, num trabalho por produtividade, bem perto de onde você trabalhava antes. Ó, o cara revestia cabos ali, ali onde está o português. Não sei o que fizeram com ele no asilo mas ficou estranho. Tava sempre com um ar perdido, nunca mais falou com ninguém. Ele revestia os cabos, o olhar vazio; sem dizer nada, quase sem mexer- duro como uma pedra, sabe? Disseram que ele tava curado. E depois, um belo dia, sumiu. Não sei o que aconteceu com ele.


Linhart, Robert (1944- )

Greve na fábrica (L’établi). Tradução de Miguel Arraes. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980. p 49-50.


domingo, 26 de agosto de 2018

Eu não sou máquina


Foi em seguida, ao longo de várias semanas, que aprendi a vida na linha de montagem. Neste primeiro dia, só fiz adivinhá-la: através da tensão de um rosto, de um gesto de irritação, da ansiedade de um olhar lançada na direção de uma carroçaria que vai chegando quando a precedente ainda não está acabada. Agora, observando os operários, um depois do outro, começo a notar uma certa diversidade naquilo que, à primeira vista, assemelhava-se a uma mecânica humana homogênea: um, comedido e preciso, o outro, nervoso e suando, os avanços, os atrasos, as minúsculas táticas de posto, os que largam suas ferramentas entre cada carro e os que as conservam-na mão, “os desligamentos”... E o perpétuo deslizar dos [carros] 2CV, lento e implacável, que se constrói de minuto em minuto, a cada gesto, de uma operação a outra. O furador. Os clarões. As brocas. O ferro queimado. [...]
Nos interstícios desse deslizar cinzento, entrevejo uma guerra de usura da morte contra a vida e da vida contra a morte. A morte: a engrenagem da linha de montagem, o imperturbável deslizar dos carros, a repetição de gestos idênticos, a tarefa jamais terminada. Um carro está pronto? O seguinte ainda não está e apresenta-se logo para ser soldado, exatamente no lugar onde se acabou de soldar, rugoso exatamente onde se acabou de polir. A solda está feita? Não, precisa ser feita. Feita definitivamente, desta vez? Não, deve ser feita de novo, nunca está acabada- como se não houvesse movimento, nem os gestos contassem, nem existissem mudanças, mas apenas um simulacro absurdo de trabalho que se desfaz logo após terminado, sob o efeito de uma maldição qualquer. E se nos dissermos que nada disso tem importância, que basta habituar-se a fazer os mesmos gestos de uma maneira sempre idêntica, num tempo sempre idêntico, aspirando unicamente à plácida perfeição da máquina? Tentação da morte. Mas a vida revolta-se e resiste. O organismo resiste. Os músculos resistem. Os nervos resistem. Alguma coisa, no corpo e na cabeças, defende-se contra a repetição e o nada. A vida: um gesto mais rápido, um braço que cai inoportunamente, um passo mais lento, um sopro de irregularidade, um movimento em falso, o “avanço”, o “afundamento”, a tática do posto: tudo o que nesse irrisório reduto de resistência contra o vazio eterno que é o posto de trabalho faz com que ainda haja acontecimentos, embora minúsculos, que haja ainda um tempo, mesmo se monstruosamente prolongado. Esta imperícia, este deslocamento supérfluo, esta súbita aceleração, esta solda imperfeita, essa mão que a refaz duas vezes, esta careta, este “desligamento”- é a vida que se aferra. Tudo o que, nos homens da linha de montagem, grita silenciosamente: “eu não sou máquina”.



Linhart, Robert (1944- )


Greve na fábrica (L’établi). Tradução de Miguel Arraes. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980. p 14-15

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Salário por produção nos canaviais


Marcha pelos canaviais. Aqui, um feitor, de camisa vermelha, balança portátil na cintura, caderneta na mão. Supervisiona quatro ou cinco trabalhadores espalhados entre as canas, que cortam e amarram em feixes. Pedimos para ver a caderneta. Ele mostra: deste lado, os nomes; do outro lado, em frente, a produção diária. A página da véspera, no conjunto, a coisa varia entre quinhentos e mil e quinhentos quilos por dia.
_ 2.250 nesta linha: por que este número tão elevado?
_. É um sujeito que vem trabalhar com a neta.
_E aqui, 150. Por que tão pouco?
_. É um menino de seis anos: é o que ele faz num dia. (150 quilos de cana; o salário é pela produção, este menino ganhou ontem 8 cruzeiros)
Pelas cinco horas, diz o feitor, faz-se a conta aqui mesmo. Mostra dois pretos que cortam cana a alguns passos de distância: “estes dois aí são ‘da rua’ (da cidade)”. Os pretos param de trabalhar e um responde às nossas perguntas:
_. Levanto-me às quatro da manhã para começar aqui às seis. Sou ‘volante’. Trabalho um dia aqui, outro lá.
_. Por que vocês vêm da cidade para trabalhar na cana? Não dá para arranjar outro trabalho?
Tem nada, diz ele com uma careta de desgosto. Acende um cigarro e cala-se. O feitor mostra o feixe que ele acaba de amarrar: “se ele fizer cem como este, terá os 1500 quilos”.
Afastamo-nos e ele recomeça a cortar cana. Movimento lentos. Umidade tropical. Esta maneira arrastada do falar brasileiro. Sente-se como que um esvaziamento interior. À nossa frente, perto da cana que está sendo cortada, uma zona de incêndio. Na pista, ao pé de uma colina, um caminhão azul está sendo carregado por quatro homens- vibração dos feixes de cana. Murmúrio de um riacho no meio da terra queimada. Cheiro de cinza. O vento carrega as cinzas finas, que penetram por toda a parte, até nas casas e nos quartos. Ruído longínquo de vozes no canavial e da própria cana sendo cortada. No fundo da paisagem, a “casa grande” rodeada de palmeiras, brancura quase totalmente oculta ao olhar. À nossa volta, um horizonte de colinas. E nesta umidade, estes barulhos moles: nesta depressão achatada, sempre, sempre, uma enorme sensação de esvaziamento.

Linhart, Robert (1944- )



O açúcar e a fome: pesquisa nas regiões açucareiras do nordeste brasileiro. Tradução de J. Silveira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.p 16-17.