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domingo, 5 de janeiro de 2025

Qualquer atividade é considerada boa e importante


Para se realizar uma atividade qualquer, é preciso que ela seja considerada boa e importante. Por isso, seja qual for a situação de um ser humano, este forma necessariamente um conceito da vida em que sua atividade lhe parece importante e bela.

Isto surpreende-nos quando se trata de ladrões, de prostitutas e de assassinos, que se orgulham de sua habilidade, da sua corrupção ou da sua crueldade

Geralmente, pensa-se que o ladrão, o assassino, o espião e a prostituta devem envergonhar-se da sua profissão, reconhecendo-a má. Mas a nossa surpresa deve-se a que o círculo de tais pessoas é limitado e acima de tudo, ao fato de nos encontrarmos fora dele. Não se produz afinal o mesmo fenômeno entre os ricos que se orgulham de suas riquezas, isto é, dos seus roubos? Entre os militares, que se orgulham das suas vitórias, isto é, dos seus crimes? E entre os seres poderosos que se orgulham de seu poder, isto é, de suas violências? Não reparamos que estes seres deformam o conceito da vida, do bem e do mal, para justificar a sua situação, apenas porque o seu círculo é maior e nós próprios pertencemos a ele.

 

Leon Tolstoi (1828-1910)

 

 Obra completa. Volume II. Ressurreição. Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar S.A, 1976 p 853-854

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

O cavalo e o cavalariço (fábula)


Um cavalariço roubava aveia do cavalo e a vendia. Mas ele escovava o cavalo todo dia. Aí, o cavalo disse para ele:
- Se você quer de fato que eu fique bonito, pare de vender minha aveia.



 Tolstoi, Leon (1828-1910)

Contos da nova cartilha: primeiro livro de leitura. Tradução de M. Aparecida B. P. Soares. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2005. p 89

O filho sábio (fábula)


Um rapaz chegou da cidade para visitar o pai na aldeia. O pai disse:
-Estamos na época da ceifa: pegue o ancinho e venha me ajudar.
Porém, o filho não tinha vontade de trabalhar e disse:
-Eu estudei ciências e esqueci todas as palavras que os mujiques usam. O que é um ancinho?
Mal ele saiu para o quintal, pisou num ancinho que bateu bem na sua testa. Aí, ele lembrou logo o que era um ancinho, passou a mão na testa e disse:
- Quem foi o idiota que largou o ancinho aqui?

Tolstoi, Leon (1828-1910)

Contos da nova cartilha: primeiro livro de leitura. Tradução de M. Aparecida B. P. Soares. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2005. p 125

O fardo (fábula)


Dois homens iam juntos pela estrada, cada um carregando no ombro o seu fardo. Um deles carregou-o sem tirá-lo durante todo o caminho; e o outro vivia parando, tirava o fardo e sentava-se para descansar. E cada vez ele tinha de erguer o fardo e colocá-lo novamente no ombro. E assim, aquele que havia tirado seu fardo estava mais cansado do que aquele que o havia carregado sem tirá-lo.

Tolstoi, Leon ( 1828-1910)

Contos da nova cartilha: primeiro livro de leitura. Tradução de M. Aparecida B. P. Soares. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2005. p 143

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Ociosidade


A tradição bíblica ensina-nos que a felicidade do primeiro homem antes da queda consistia na ausência de trabalho, isto é, na ociosidade. O gosto da ociosidade manteve-se no homem réprobo, mas a maldição divina continua a pesar sobre ele, não só por ser obrigado a ganhar o pão de cada dia com o suor de seu rosto, mas também porque a sua natureza moral o impede de encontrar satisfação na inatividade. Uma voz secreta diz ao homem que ele é culpado de se abandonar à preguiça. E, no entanto, se o homem pudesse achar um estado em que se sentisse útil e em que tivesse o sentimento de que cumpria um dever, embora inativo, nesse estado viria a encontrar uma das condições da sua felicidade primitiva. Esta condição de ociosidade imposta e não censurável é aquela em que vive toda uma classe social, a dos militares. Em tal ociosidade está e estará o principal atrativo do serviço militar.


Tolstoi, Leon (1828-1910)


Guerra e Paz. Tradução de João Gaspar Simões. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar S.A., 1976. p 837

domingo, 20 de maio de 2018

Os militares

De todos os agrupamentos formados pelos homens para realizar atos coletivos um dos mais concretos e definidos é o exército.
Todo o exército se compõe de membros os mais humildes na hierarquia militar, soldados rasos, sempre o maior número, de outros, de patente mais elevada, os cabos, os sargentos, menos numerosos, e ainda de outros de patente mais elevada, menos numerosos ainda, e assim por diante até a mais alta autoridade militar, a qual é constituída apenas por uma só pessoa.
A organização do exército poder-se-ia perfeitamente representar por um cone cujo maior diâmentro seria ocupado pelo soldado raso, as secções menores, ocupadas pelas patentes sucessivamente mais elevadas, até ao topo do cone, onde estaria o general-em-chefe.
Os soldados, que são os mais numerosos, formam a parte inferior e a base. É o soldado, diretamente, quem fere, corta, queima, saqueia, e para executar estas tarefas recebe sempre ordens dos que estão situados na escala acima; o soldado raso, por si, nunca dá ordens. Os sargentos, menos numerosos, raramente executam a mesma tarefa que o soldado raso; mas já dão ordens. O oficial mais raramente age, e dá mais ordens. O general limita-se a dizer às tropas que marchem e quase nunca se utiliza de suas próprias armas. O comandante-em-chefe não pode tomar já parte direta na ação e limita-se a emitir as medidas gerais que fazem mover as massas. Eis o que se passa exatamente com qualquer reunião de indivíduos associados numa ação comum, quer seja um empreendimento agrícola, comercial ou de qualquer outra espécie.
Assim, pois, sem separar artificialmente as partes que formam o cone, e se confundem entre si, isto é, as patentes do exército ou títulos e situações de qualquer organização coletiva, depreende-se da lei que os homens, para levarem a bom termo uma obra de iniciativa comum, combinam de tal sorte a ação que empreendem que quanto mais direta é a parte que tomam nessa obra menos têm que dar ordens e tanto mais numerosos são. Quanto menos nela participam diretamente tanto mais ordens dão, e erguendo-se, assim, desde as camadas inferiores, chega-se a um único e derradeiro indivíduo, que participa diretamente na obra menos que todos os outros e mais do que nenhum exerce a sua influência por meio de ordens.
Esta é a relação entre os homens que comandam e aqueles que recebem as ordens, relação que constitui a essência do conceito chamado poder.

Tolstoi, Leon (1828-1910)

Guerra e Paz. Tradução de João Gaspar Simões. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar S.A., 1976. p 1530