A Estátua de mármore custa muito a fazer,
pela dureza e resistência da matéria; mas depois de feita uma vez, não é
necessário que lhe ponham mais a mão, sempre conserva e sustenta a mesma
figura: a Estátua de murta é muito mais fácil de formar, pela facilidade com
que se dobram os ramos; mas é necessário andar sempre reformando e trabalhando
nela, para que se conserve. Se deixa o jardineiro de assistir, em quatro dias
sai um ramo que lhe atravessa os olhos; sai outro, que lhe descompõe as
orelhas: saem dois, que de cinco dedos lhe fazem sete; e o que pouco antes era
um homem, já é uma confusão verde de murtas. Eis aqui a diferença que há entre
umas nações e outras na doutrina da Fé. Há umas nações naturalmente duras,
tenazes e constantes, as quais dificultosamente recebem a fé e deixam os erros
de seus antepassados: resistem com as armas, duvidam com o entendimento,
repugnam com a vontade, cerram-se, teimam, argumentam, replicam, dão grande
trabalho até se renderem; mas uma vez rendidas, uma vez que receberam a Fé,
ficam nela firmes e constantes como Estátuas de mármore, não é necessário
trabalhar mais com eles. Há outras nações pelo contrário (e estas são as do
Brasil) que recebem tudo o que lhes ensinam, com grande docilidade e
facilidade, sem argumentar, sem replicar, sem duvidar, sem resistir; mas são
Estátuas de murta, que em levantando a mão e a tesoura o jardineiro, logo
perdem a nova figura, e tornam à bruteza antiga e natural, e a ser mato como
dantes eram. É necessário que assista sempre a estas Estátuas o mestre delas,
uma vez que lhe corte o que vicejam os olhos, para que creiam o que não vêem;
outra vez para que lhe cerceie o que vicejam as orelhas, para que não dêem
ouvidos às fábulas de seus antepassados; outra vez que lhe decepe o que vicejam
as mãos e os pés, para que se abstenham das ações e costumes bárbaros da
gentilidade. E só desta maneira, trabalhando sempre contra a natureza do tronco
e humor das raízes, se pode conservar nestas plantas rudes a forma não natural
e compostura dos ramos.
[ ] E
para se aproveitar e lograr o trabalho, há de ser com outro trabalho maior, que
é assisti-lo: há de assistir e insistir sempre com eles, tornando a trabalhar o
já trabalhado e a plantar o já plantado e a ensinar o já ensinado, não
levantando jamais a mão da obra, porque sempre está por obrar, ainda depois de
obrada.
Antonio
Vieira (1608-1697)
Sermão do
Espírito Santo, pronunciado em 1657 na Igreja da Companhia de Jesus, em São Luís do Maranhão. Em
Sermões, Tomo I, org. Alcir Pécora. Hedra, São Paulo, 2000.