sábado, 15 de fevereiro de 2020

Três apitos


Quando o apito
Da fábrica de tecidos
Vem ferir os meus ouvidos
Eu me lembro de você
Mas você anda
Sem dúvida bem zangada
E está interessada
Em fingir que não me vê.

Você que atende ao apito
De uma chaminé de barro
Por que não atende ao grito tão aflito
Da buzina do meu carro?

Você no inverno
Sem meias vai pro trabalho
Não faz fé com agasalho
Nem no frio você crê
Mas você é mesmo
Artigo que não se imita
Quando a fábrica apita
Faz reclame de você

Sou do sereno
Poeta muito soturno
Vou virar guarda-noturno
E você sabe por quê
Mas você não sabe
Que enquanto você faz pano
Faço junto do piano
Estes versos pra você.

Nos meus olhos você lê
Que eu sofro cruelmente
Com ciúmes do gerente impertinente
Que dá ordens a você.



Noel Rosa (1910-1937)

Noel Rosa: uma biografia. João Máximo e Carlos Didier. Brasília: Editora Universidade de Brasília: Linha Gráfica Editora, 1990. P 184.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Professor prêmio Nobel de física

Não sei mesmo o que faria se não fosse professor. Isso porque, tendo alguma coisa para fazer quando estou sem ideias e não vou chegar a lugar nenhum, posso dizer a mim mesmo: “Pelo menos estou vivo, pelo menos estou fazendo alguma coisa, estou dando uma contribuição.” É uma questão psicológica.
Quando estava em Princeton, na década de 1940, via o que acontecia com aquelas grandes mentes do Instituto de Estudos Avançados, especialmente escolhidos por sua tremenda capacidade intelectual, que agora tinham a oportunidade de ficar numa casa deliciosa ao lado do bosque, sem aulas para dar, sem nenhuma obrigação. Assim esses pobres infelizes poderiam se dedicar exclusivamente à reflexão, certo? Então ficam algum tempo sem ter ideia alguma: eles têm todas as oportunidades de fazer alguma coisa, e estão sem ideias. Acho que, numa situação como essa, se instala na pessoa uma espécie de culpa ou depressão, e ela começa a se preocupar com o fato de não ter ideias. E nada acontece. As ideias continuam sem dar as caras.
Nada acontece porque não há atividade ou desafios reais: você não está em contato com o pessoal da área experimental. Não tem a preocupação de responder as perguntas dos alunos. Nada!
Em qualquer processo de pensamento, há momentos em que tudo vai bem em que surgem ótimas ideias. Ensinar é uma interrupção e, por isso, é o maior problema do mundo. E aí vêm aqueles longos períodos em que nada acontece. Você está sem ideias e, se não tiver nada para fazer, vai ficar maluco. Nem sequer pode dizer: “Vou dar minha aula.”
Quando está dando aula, você pode pensar sobre coisas elementares que conhece muito em. Essas coisas são uma espécie de entretenimento e prazer. Não faz mal nenhum pensar nelas mais vez. Será que existe uma maneira melhor de apresentá-las? Haverá novos problemas ligados a elas? É possível ter novas ideias em relação a elas? É fácil pensar em coisas elementares; se você não conseguir ter uma perspectiva nova sobre elas, nenhum problema. Se pensar alguma coisa nova, vai gostar de descobrir uma maneira diferente de ver aquilo.
As perguntas dos alunos são muitas vezes fonte de novas pesquisas. Eles costumam fazer questionamentos profundos sobre coisas em que eu já tinha pensado, mas que, por assim dizer, deixei de lado por um tempo. Não me faria mal nenhum refletir sobre elas de novo e ver se consigo ir mais longe desta vez. Os alunos podem não ser capazes de alcançar aquilo a que eu quero responder, ou sutilezas que eu quero analisar, mas eles me recordam um problema com suas perguntas referentes a ele. Não é fácil lembrar a si mesmo essas coisas.
Por isso acho que o ensino e os alunos mantêm a vida andando, e nunca aceitaria um cargo que representasse uma situação cômoda para mim e no qual eu não precisasse ensinar. Nunca. 


Richard P. Feynman (1918-1988)


Só pode ser brincadeira, sr. Feynman! As excêntricas aventuras de um físico. Tradução de Donaldson M. Garschagen e Renata Guerra. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2019. p 195-196.