quarta-feira, 22 de julho de 2020

Quando eu trabalhava num sebo


Quando eu trabalhava num sebo - que, para quem nunca trabalhou num, é muito fácil imaginar como uma espécie de paraíso onde encantadores senhores idosos folheiam livros sem cessar em meio a fólios encadernados em couro de bezerro - o que mais me impressionava era a raridade de pessoas de fato dadas à leitura. Nossa livraria dispunha de um estoque excepcionalmente interessante, no entanto duvido que dez por cento dos fregueses soubessem distinguir um livro bom de um ruim. Pretensos entendidos em primeiras edições eram bem mais comuns do que amantes da literatura, mas estudantes orientais que pechinchavam livros didáticos baratos eram ainda mais comuns, e mulheres indecisas em busca de presentes de aniversário para sobrinhos, de todos, as mais comuns.
Muitas das pessoas que nos procuravam eram do tipo que seria inconveniente em qualquer lugar, mas que encontrava oportunidades especiais numa livraria. Por exemplo, a estimada senhora que “quer um livro para um inválido” (uma procura bastante frequente) e a outra estimada senhora que leu um livro muito bom em 1897 e gostaria de saber se poderíamos localizar um exemplar para ela. Infelizmente não se lembra do título nem do nome do autor, ou do que o livro tratava, mas se lembra de que a capa era vermelha. Afora esses, existem dois tipos de pragas notórios pelos quais todo sebo é perseguido. Um é o indivíduo decadente que cheira a farelo de pão amanhecido e que aparece todos os dias, de quando em quando, várias vezes por dia, tentando vender livros sem valor. O outro é o que pede quantidades enormes de livros pelos quais não tem a menor intenção de pagar. [...] Numa cidade como Londres, há sempre uma porção de loucos não exatamente interditáveis soltos nas ruas e que tendem a se dirigir às livrarias, porque uma livraria é um dos poucos lugares em que podemos nos demorar por bastante tempo sem gastar um tostão. No fim, acabamos de conhecer essas pessoas só de bater os olhos. [...]
Mas o verdadeiro motivo pelo qual eu não gostaria de ficar para sempre no ramo dos livros é que, enquanto estive nele, perdi o amor pelos livros. Um livreiro tem de dizer mentiras sobre livros, e isso lhe causa certa aversão a eles; pior ainda é estar tirando constantemente o pó e transportando-os de um lado para outro. Houve época em que eu adorava os livros. Adorava vê-los, cheirá-los, tocá-los, quer dizer, ao menos se tivessem cinquenta anos ou mais [...]. Mas logo que comecei a trabalhar numa livraria parei de comprar livros [...]. Hoje em dia compro um de vez em quando, mas só se for um livro que quero ler e não posso tomar emprestado, e jamais compro livro velho. O doce cheiro de papel em deterioração já não me atrai. Está por demais associado em minha mente a fregueses paranóicos e moscas–varejeiras mortas.

George Orwell (1903-1950)


Dentro da baleia e outros ensaios. Tradução de José Antonio Arantes.- São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p 32- 38.



terça-feira, 7 de julho de 2020

A parteira da floresta

Elas nasceram do ventre úmido da Amazônia, do norte extremo do Brasil, do estado desgarrado do noticiário chamado Amapá. O país não as escuta porque perdeu o ouvido para os sons do conhecimento antigo, a toada de suas cantigas. Muitas desconhecem as letras do alfabeto, mas leem a mata, a água e o céu. Emergiram dos confins de outras mulheres com o dom de pegar menino. Sabedoria que não se aprende, não se ensina, nem mesmo se explica. Acontece apenas. [...]
“Pegar menino é ter paciência” recita a Karipuna Maria dos Santos Maciel, a Dorica, a mais velha parteira do Amapá. Aos 96 anos, mais de dois mil índios desembarcaram no mundo pelas suas mãos pequenas, quase de criança. Dorica -avó, mãe, madrinha de centenas de filhos de pegação - nem mesmo gosta de possuir o dom. “O dom é assim, nasce com a gente. E não se pode dizer não” Dorica, a parteira indígena, alarga a língua do colonizador ao poetar enormidades: “Parteira não tem escolha, é chamada nas horas mortas da noite para povoar o mundo”.
Como um espectro feminino, ela navega pelos rios do Oiapoque alumiada apenas por uma lamparina. Viaja acompanhada da irmã Alexandrina, 66 anos, de quem fez o parto de nove dos 11 filhos. “Mulher e floresta são uma coisa só”, diz Alexandrina. “A mãe terra tem tudo, como tudo se encontra no corpo da mulher. Força, coragem, vida e prazer”.
Quando os remos fatiam o rio silencioso, são perseguidos pelos olhos de lanterna dos jacarés. ”Não tem perigo. Eles só comem cachorro e sandália” tranquiliza Dorina. Ela lembra os 16 abortos do seu ventre, impedida de ter um filho seu por desígnios que não lhe cabem indagar. “Tô cansada”, anuncia. “Queria pedir a Deus o meu aposentamento de parteira”.
Deus é ainda mais sossegado que o Ministro da Previdência. Até agora não deu resposta ao pedido. Assim, Dorica segue cravando os pés nus no chão sempre que alcança o destino. Em seguida, acocora-se entre as coxas da mulher. Alexandrina abraça o corpo da gestante com as pernas, por trás. Das entranhas do corpo feminino Dorica nada arranca, apenas espera. Puxa a barriga da mãe, endireitando a criança. Lambuza o ventre com óleo de anta, arraia ou mucura para apressar as dores. Perfura a bolsa com a unha e corta o cordão umbilical com a flecha. Ou com os dentes. ”Pegar menino é esperar o tempo de nascer” ensina. “Os médicos da cidade não sabem e, porque não sabem, cortam a mulher”.
Por oito dias Dorica abandona a roça de mandioca. É missão da parteira lavar, cozinhar, puxar o útero toda manhã e toda tarde para que a mulher fique sã. É obrigação pentear o seio com pente fino e água de uma cuia branca para que o leite jorre entre os lábios do menino. É sabedoria aspirar o nariz do bebê com a boca até ouvir o choro. Ao final desse tempo, Dorica entrega a mulher ao marido: ”O que eu podia fazer por ela eu já fiz. Agora você tem que cuidar da família”. O marido agradece: “Se eu puder lhe dar alguma coisa, lhe dô”. E Dorica responde: “Deus dá o pago”. E o diálogo se encerra. É tudo. E é assim há bem mais de 500 anos.
A mulher só vai abrir a porta da casa depois de 40 dias. Assim como a criança. Antes de respirar o ar da floresta, é benzida com água e sal para o espanto dos espíritos maus. Dos mais de dois mil partos, Dorica só perdeu três. Não passa um dia sem lamentar. “É uma criança que faltou na comunidade”. No entendimento dos povos da floresta ninguém é substituível. Ou descartável. A vida que se extinguiu antes de vingar é única
A parteira dá adeus enquanto a canoa some no rio. A arara a vigia de um galho, um bando de papagaios recorta o céu aos gritos, uma menina se banha na água do igarapé preparando-se para a escola. É um dia comum. Dorica pousa a mão no velho coração e, pronunciando palavras silenciosas, arranca de lá a benção aos que partem. Depois, dá as costas e vai pitar tabaco enquanto espera a hora em que o quinto filho da última barriguda da aldeia, a índia Ivaneide Iapará, 33 anos, vai esmurrar a porteira do mundo pedindo passagem.

  Eliane  Brum (1966-)


 O olho da rua: uma repórter em busca da literatura da vida real. 2. ed. r. e ampl. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2017.p 19-21