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sábado, 23 de agosto de 2025

Matar porcos

Todos na aldeia diziam que o pai de Cinco tinha uma ótima mão para matar porcos: ele sempre atingia o lugar certo com a primeira facada. Assim que a faca caía, o porco, pendendo de uma árvore pelas patas amarradas, lutava, balançava-se e guinchava e o sangue jorrava. A essa altura, as irmãs não conseguiam parar de tremer; suas gargantas se apertavam e era-lhes difícil respirar. Quando via que o espírito havia saído do corpo do porco, o pai delas assoprava numa bomba de ferro que encontrara em algum lugar e inflava a carcaça do porco morto até que ele ficasse rígido como um tambor. Então removia os pelos e a pele e cortava fora o rabo e a cabeça. O que mais assustava Cinco era observar a barriga sendo aberta. Um deslizar da faca e todos os órgãos despencavam em outra bacia e uma golfada de fedor sanguinolento os atingia em cheio. Às vezes o pai enfiava a mão dentro da barriga aberta e a cutucava por dentro, para limpar o que quer que lá permanecesse. O homem então cortava o porco em grandes pedaços para que a melhor parte do lombo, a barriga, as paletas, os pernis e os pés pudessem ser enviados ao mercado para venda, e assim garantir roupas novas para toda a família. (Quase todo o porco era enviado ao mercado, até mesmo o sebo do estômago; para a família sobravam os pedaços menores de banha em torno dos intestinos, o final do pescoço, para fazer conserva, e o estômago e os intestinos, que eram comidos para celebrar o Festival da Primavera.) Enquanto o pai cortava, a mãe ensinava às filhas como limpar as vísceras, desossar, e esquartejar a carne, e pôr tudo para salgar. Enquanto afiava a faca, ela lhes mostrava quais partes eram o coração, os pulmões e o fígado, dizendo qual a função das vísceras, que eram mais ou menos as mesmas para as pessoas. E então as irmãs aprenderam que ao lavar o coração era preciso cortar até as veias grossas de sangue, a fim de se livrar das válvulas logo acima, e apertar para pôr para fora todo o sangue contido lá dentro; que ao lavar o fígado era preciso primeiro remover a vesícula biliar; que ao limpar os intestinos era preciso lavá-los cuidadosamente com sal, antes de encharcá-los com vinagre a fim de se livrar do cheiro. A parte mais divertida era virar o intestino grosso e o intestino delgado ao avesso, embora fosse um trabalho bem fedorento. As meninas jogavam a água dos intestinos umas nas outrar e caiam na risada. Cinco adorava a maneira com que os pulmões, originalmente róseos, se tornavam brancos como a neve e escorregadios aos serem lavados. Era preciso espremê-los repetidas vezes, mas depois ela ficava com um forte sentimento de “realização”.

 

 

Xinran (1958-)

 

As filhas sem nome; tradução de Caroline Chang. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p 179-80