sexta-feira, 19 de junho de 2026

Cantos de trabalho: mutirão


                                                               Leon Hirszman ( 1937-1987)

Cantos de trabalho: cacau


                                                               Leon Hirszman (1937-1987)

Cantos de trabalho: cana-de-açúcar


                                                           Leon Hirszman (1937-1987)

sábado, 6 de junho de 2026

O trabalho sujo dos outros

Erasmo Wagner adora trabalhar no turno da noite. É quando a cidade está em baixa e os lixos se amontoam nas calçadas dos prédios. Mesmo em épocas muito abafadas, à noite sempre existe uma brisa.

Não há pressa. Seus passos ecoam. Suas piadas em voz alta também. No turno da noite, além de Valtair, o novato, contam com a companhia de Jeremias, o outro lixeiro. Este não tem a mão esquerda. Ela foi triturada no moedor de cana de um bar em que trabalhou. Talvez por isso seja tão habilidoso. Seu trabalho rende por dois, precisa mostrar-se merecedor de recolher o lixo mesmo com apenas uma mão. Ele apanha um saco dos grandes, com a ajuda do punho esquerdo e mira na caçamba do caminhão a distâncias cada vez maiores.

- Você deixou aquele saco pra trás - diz Jeremias para Valtair. -Você precisa ser mais limpo, cara. Pra trabalhar com isso, você precisa ser limpo, entendeu?

Jeremias gosta de ordem e limpeza. Quando passa por uma rua, percebe-se a qualidade de seus serviços. Ele não deixa nem uma guimba de cigarro pra trás. Não faz lambança como muitos lixeiros, que deixam um rastro de sujeira pela rua. Jeremias não deixa nem pegadas por onde passa. E um homem limpo e cheira a alfazema. Mesmo quando transpira demais.

[...]

Erasmo Wagner remói em silêncio o quão importante é seu trabalho. Importante para manter a ordem, a segurança, a saúde. Importante para os ratos e urubus. Importante para quem o despreza por cheirar azedo. Além de profissão de risco, é mão de obra imprescindível. O que pedem é salário mais justo, um reajuste digno do adicional de insalubridade. Nos últimos meses, muitos trabalhadores afastaram-se do trabalho devido a acidentes. Acidentes nunca reportados em lugar algum. Gostam de narrar tiros e mortes por bandidos. Grandes fatalidades. Catástrofes. Escândalos. Mas o trabalho que exercem é bem mais perigoso, assim como é grande a frequência de acidentes. Mas um sujeito que vive do lixo, que está tão próximo dele, não soa importante. Seus acidentes não importam.

 

Ana Paula Maia (1977)

 

Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos. Duas Novelas. Rio de Janeiro, Editora Record, 2009. Epub.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Vida Além do Trabalho

Tomaz Silva/ Agência Brasil

                            https://www.bbc.com/portuguese/articles/c620ed97zp9o

terça-feira, 31 de março de 2026

Bombeiro no meio das chamas

Ernesto Wesley termina de vestir sua roupa de proteção completa e, com a ajuda de outro bombeiro, ele coloca o equipamento de proteção respiratória. Apanha uma lanterna e um rádio portátil para a comunicação com o comandante da operação. O total de peso acrescido sobre ele é de trinta quilos. Isso dificulta a transpiração, a respiração e agride a estabilidade física e emocional. Geralmente depois da subida de vários andares pelas escadas, ele retorna carregando um corpo desmaiado sobre o seu. Ernesto Wesley consegue suportar duas vezes o seu peso. A repetição de esforço desmedido não pode ser calculada. É um dos poucos bombeiros que conseguem alcançar alturas elevadas no tempo requerido. [...]

De onde todos querem sair, Ernesto Wesley precisa entrar. Ele sobe as escadas apressado, num ritmo similar ao dos outros colegas, até atingir o oitavo andar. Quanto mais avança para o alto, mais intensos o calor e a cortina negra de espessa fumaça que precisa atravessar. Ao chegar no oitavo andar ouve os gritos de algumas pessoas que ainda estão presas em seus apartamentos [...]

Crava o machado na porta do apartamento 802, arrebenta-a e em seguida se protege do fogo que avança sobre ele. As chamas estão elevadas e Ernesto corre para o fundo da sala atravessando o fogo. O calor demora para sufocá-lo. Seus pulmões já estão acostumados e sua pele também. A mulher encolhida num canto e sem roupas é abraçada por Ernesto enquanto grita que seu pai está no quarto. [...] . A mulher lhe dá alguns tapas implorando para buscar o pai. “Ele é aleijado”, ela grita. “Está na cama”. Ele atravessa a sala com ela envolta em seus braços e outro bombeiro a ampara no corredor. Ernesto Wesley segue por um sombrio corredor carvoento e derruba a chutes uma porta. O quarto está tomado pelo fogo. Ele escuta um gemido. Avança até o final do corredor sem enxergar, ultrapassando seus limites, sufocando-se, sentindo um pouco de vertigem, arrebenta a porta com o machado e o homem está deitado na cama com fogo ao seu redor. O velho grita de pavor e agarra-se à cama. Ele segura o homem magro e enrugado no colo envolvido pela colcha da cama quando um pedaço de reboco cai a seu lado. O fogo se alastrou por todo o corredor. Ernesto está preso. Mas é por cima das chamas que ele caminha. O calor atravessa as botas e a roupa pesada. As labaredas avançam como serpentes. Desce como velho no colo e sai do prédio. Uma equipe de socorristas apanha o homem com uma maca e Ernesto Wesley retorna para dentro do prédio. Há relato de que alguém está preso no quinto andar, onde o fogo começou.

 

Ana Paula Maia (1977-)

 

Carvão animal [recurso eletrônico] Rio de Janeiro: Record, 2011. Recurso Digital (Trilogia do homem comum)