domingo, 29 de março de 2020

A estátua de mármore e a estátua de murta


A Estátua de mármore custa muito a fazer, pela dureza e resistência da matéria; mas depois de feita uma vez, não é necessário que lhe ponham mais a mão, sempre conserva e sustenta a mesma figura: a Estátua de murta é muito mais fácil de formar, pela facilidade com que se dobram os ramos; mas é necessário andar sempre reformando e trabalhando nela, para que se conserve. Se deixa o jardineiro de assistir, em quatro dias sai um ramo que lhe atravessa os olhos; sai outro, que lhe descompõe as orelhas: saem dois, que de cinco dedos lhe fazem sete; e o que pouco antes era um homem, já é uma confusão verde de murtas. Eis aqui a diferença que há entre umas nações e outras na doutrina da Fé. Há umas nações naturalmente duras, tenazes e constantes, as quais dificultosamente recebem a fé e deixam os erros de seus antepassados: resistem com as armas, duvidam com o entendimento, repugnam com a vontade, cerram-se, teimam, argumentam, replicam, dão grande trabalho até se renderem; mas uma vez rendidas, uma vez que receberam a Fé, ficam nela firmes e constantes como Estátuas de mármore, não é necessário trabalhar mais com eles. Há outras nações pelo contrário (e estas são as do Brasil) que recebem tudo o que lhes ensinam, com grande docilidade e facilidade, sem argumentar, sem replicar, sem duvidar, sem resistir; mas são Estátuas de murta, que em levantando a mão e a tesoura o jardineiro, logo perdem a nova figura, e tornam à bruteza antiga e natural, e a ser mato como dantes eram. É necessário que assista sempre a estas Estátuas o mestre delas, uma vez que lhe corte o que vicejam os olhos, para que creiam o que não vêem; outra vez para que lhe cerceie o que vicejam as orelhas, para que não dêem ouvidos às fábulas de seus antepassados; outra vez que lhe decepe o que vicejam as mãos e os pés, para que se abstenham das ações e costumes bárbaros da gentilidade. E só desta maneira, trabalhando sempre contra a natureza do tronco e humor das raízes, se pode conservar nestas plantas rudes a forma não natural e compostura dos ramos.

[  ] E para se aproveitar e lograr o trabalho, há de ser com outro trabalho maior, que é assisti-lo: há de assistir e insistir sempre com eles, tornando a trabalhar o já trabalhado e a plantar o já plantado e a ensinar o já ensinado, não levantando jamais a mão da obra, porque sempre está por obrar, ainda depois de obrada.


Antonio Vieira (1608-1697)

Sermão do Espírito Santo, pronunciado em 1657 na Igreja da Companhia de Jesus, em São Luís do Maranhão. Em Sermões, Tomo I, org. Alcir Pécora. Hedra, São Paulo, 2000.

O homem é um animal fazedor


O homem não faz nada segundo a natureza: é, ouso me exprimir assim, um animal fazedor. Nada lhe agrada se ele não lhe dá um tratamento: tudo que toca, ele precisa arranjar, corrigir, aperfeiçoar, recriar. Para o prazer de seus olhos ele inventa pintura, arquitetura, as artes plásticas, a decoração, todo um mundo de hors-d’oeuvre, sobre o qual ele não saberia dizer a razão ou a utilidade, se não que é para ele uma necessidade de imaginação, que isso lhe agrada. Para seus ouvidos, ele castiga sua linguagem, conta suas sílabas, mede os tempos de sua voz. Depois, inventa a melodia e os acordes, junta as orquestras a vozes potentes e melodiosas e, nos concertos produzidos, crê escutar a música das esferas celestes e o canto de espíritos invisíveis. Que lhe adianta comer apenas para viver? A sua delicadeza precisa de disfarces, fantasias, um estilo. Ele acha quase chocante se alimentar: não cede à fome, transige com seu estômago. Antes morrer de fome do que pastar a sua comida. A água pura das rochas não é nada para ele: inventa a ambrosia e o néctar. As funções de sua vida que não consegue dominar, ele as chama de vergonhosas, desonestas, ignóbeis. Ele aprende a andar e a correr. Ele tem um método para se deitar, se levantar, se sentar, se vestir, lutar, se governar, fazer justiça; ele até encontrou a perfeição do horrível, o sublime do ridículo, a ideia do feio. Enfim, ele saúda, se dá ao respeito, ele tem por sua pessoa um culto minucioso, ele se adora como uma divindade...
Todas as ações, os movimentos, os discursos, os pensamentos, os produtos, os afetos do homem têm esse caráter de artista. Mas esta arte, é a prática das coisas que a revela, é o trabalho que se desenvolve; de modo que quanto mais a habilidade do homem se aproxima do ideal, mais ele próprio se eleva acima da sensação. O que constitui o atrativo e a dignidade do trabalho é criar pelo pensamento, se livrar de todo mecanismo, eliminar de si a matéria. Esta tendência, ainda fraca na criança inteiramente mergulhada na vida sensitiva, mais marcante no jovem, orgulhoso de sua força e de sua agilidade, mas já sensível ao mérito do espírito, se manifesta cada vez mais no homem maduro. Quem não encontrou esses operários que uma longa assiduidade ao trabalho tornou espontaneamente artistas, a quem a perfeição do trabalho era uma necessidade tão imperiosa como a subsistência, e que, em uma especialidade aparentemente mesquinha, descobriam de repente brilhantes perspectivas?
O que nem a ginástica, nem a política, nem a música, nem a filosofia, reunindo seus esforços, souberam fazer, o trabalho conseguiu. Como nas eras antigas, a iniciação à beleza vinha dos deuses, assim, numa posteridade remota, a beleza se revelará de novo pelo trabalhador, o verdadeiro asceta, e é às inúmeras formas de habilidade que ela demandará sua expressão variável, sempre nova e sempre verdadeira. Então, enfim, o Logos será manifesto, e os laboriosos humanos, mais belos e mais livres como jamais o foram os Gregos, sem nobres e sem escravos, sem magistrados e sem sacerdotes, formarão todos juntos, sobre a terra cultivada, uma só família de heróis, de sábios e de artistas.



Proudhon, Pierre-Joseph (1809-1865)


Philosophie du Progrès. Introduction et notes par Th. Ruyssen. Rivière, 1946. p 422, (tradução minha)