quarta-feira, 27 de junho de 2018

Morte e vida severina



-Muito bom dia, senhora,
que nessa janela está;
sabe dizer se é possível
algum trabalho encontrar?
-Trabalho aqui nunca falta
a quem sabe trabalhar;
o que fazia o compadre
na sua terra de lá?
-Pois fui sempre lavrador,
lavrador de terra má;
não há espécie de terra
que eu não possa cultivar.
-Isso de nada adianta,
pouco existe o que lavrar;
mas diga-me retirante,
que mais fazia por lá?
-Também lá na minha terra
de terra mesmo pouco há;
mas até a calva da pedra
sinto-me capaz de arar.
-Também de pouco adianta,
nem pedra há aqui que amassar;
diga-me ainda compadre,
que mais fazia por lá?
-Conheço todas as roças
que nesta chã podem dar:
o algodão, a mamona,
a pita, o milho, o caroá.
-Esses roçados o banco
já não quer financiar;
mas diga-me, retirante,
o que mais fazia por lá?
-Melhor do que eu ninguém
sabe combater, quiçá,
tanta planta de rapina
que tenho visto por cá.
-Essas plantas de rapina
são tudo o que a terra dá;
diga-me ainda, compadre,
que mais fazia por lá?
-Tirei mandioca de chãs
que o vento vive a esfolar
e de outras escalavradas
pela seca faca solar.
-Isso aqui não é Vitória
nem é Glória do Goitá;
e além da terra, me diga,
que mais sabe trabalhar?
-Sei também tratar de gado,
entre urtigas pastorear:
gado de comer do chão
ou de comer ramas no ar.
-Aqui não é Surubim
nem Limoeiro, oxalá!
Mas diga-me, retirante,
Que mais fazia por lá?
-Em qualquer das cinco tachas
de um banguê sei cozinhar;
sei cuidar de uma moenda
de uma casa de purgar.
-Com a vinda das usinas
há poucos engenhos já;
nada mais o retirante
aprendeu a fazer lá?
-Ali ninguém aprendeu
outro ofício, ou aprenderá:
mas o sol, de sol a sol,
bem se aprende a suportar.
-Mas isso então será tudo
em que sabe trabalhar?
vamos, diga, retirante,
outras coisas saberá.
-Deseja mesmo saber
o que eu fazia por lá?
comer quando havia o quê
e, havendo ou não, trabalhar.
-Essa vida por aqui
é coisa familiar;
mas diga-me retirante,
sabe benditos rezar?
sabe cantar excelências,
defuntos encomendar?
sabe tirar ladainhas,
sabe mortos enterrar?
-Já velei muitos defuntos
na serra é coisa vulgar;
mas nunca aprendi as rezas,
sei somente acompanhar.
-Pois se o compadre soubesse
rezar ou mesmo cantar,
trabalhávamos a meias,
que a freguesia bem dá.
-Agora se me permite
minha vez de perguntar:
como a senhora, comadre,
pode manter o seu lar?
-Vou explicar rapidamente,
logo compreenderá:
como aqui a morte é tanta,
vivo de a morte ajudar.
-E ainda se me permite
que lhe volte a perguntar:
é aqui uma profissão
trabalho tão singular?
-É, sim, uma profissão
e a melhor de quantas há:
sou de toda a região
rezadora titular.
-E ainda se me permite
mais outra vez indagar;
é boa essa profissão
em que a comadre ora está?
-De um raio de muitas léguas
vem gente aqui me chamar;
a verdade é que não pude
queixar-me ainda de azar.
-E se pela última vez
me permite perguntar:
não existe outro trabalho
para mim neste lugar?
-Como aqui a morte é tanta,
só é possível trabalhar
nessas profissões que fazem
da morte ofício ou bazar.
Imagine que outra gente
de profissão similar,
farmacêuticos, coveiros,
doutor de anel no anular,
remando contra a corrente
da gente que baixa ao mar,
retirantes às avessas,
sobem do mar para cá.
Só os roçados da morte
compensam aqui cultivar,
e cultivá-los é fácil:
simples questão de plantar;
não se precisa de limpa,
de adubar nem de regar;
as estiagens e as pragas
fazem-nos mais prosperar;
e dão lucro imediato;
nem é preciso esperar
pela colheita: recebe-se
na hora mesma de semear.



Melo Neto, João Cabral (1920 -1999)


Obra completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1995. p 179-182




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