sábado, 27 de outubro de 2018

O amanuense


Vejo muito bem que não faço nada de extraordinariamente importante quando me sento à secretária na repartição e me ponho a copiar minutas. E, no entanto, sinto-me vaidoso: trabalho, faço qualquer coisa de útil e faço-o pelo meu próprio esforço. E, além disso, há alguma coisa de mal no fato de eu não fazer outra coisa senão copiar? É porventura algum pecado? Ora! Não passo de um amanuense! Mas vamos lá a ver: que tem isso de desonroso? A minha letra é perfeitamente clara, legível, tanto que até parece letra de imprensa, e dá gosto ver uma página escrita por mim...Sua Excelência, o ministro, está muito satisfeito comigo. Quer sempre que seja eu quem lhe copie os documentos que levam a sua assinatura. Ora, tudo isto está muito bem; o que é pena é eu não redigir com elegância. De sobejo sei que não tenho estilo, que não domino a construção da prosa. Também sei isso perfeitamente e essa foi a razão por que eu não pude subir no emprego...
Sei tudo isto lindamente; mas, afinal, se todas as pessoas escrevessem de maneira original, diga-me, quem diabo havia de copiar as minutas?
                       


Dostoievski, Fiodor M. (1821-1881)


                        Pobre gente. Obra completa em quatro volumes. Tradução de Natália Nunes. Rio de Janeiro: Aguilar Editora,1963. V 1.

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