sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

A diferença


A primitiva máquina a vapor, tal como a concebeu Newcomen, exigia a presença de uma pessoa exclusivamente encarregada de manobrar as torneiras, seja para introduzir o vapor no cilindro, seja para nele lançar a chuva fria destinada à condensação. Conta-se que um menino empregado nesse trabalho, muito entediado com a obrigação de o fazer, teve a ideia de ligar as manivelas das torneiras, por cordões, ao pêndulo da máquina. Desde então, a máquina abria e fechava por si mesma as suas torneiras; ela funcionava sozinha. Ora, um observador que comparasse a estrutura dessa segunda máquina com a da primeira, sem se ocupar dos dois meninos encarregados da vigilância, só teria verificado entre elas uma ligeira diferença de complicação. É tudo o que se pode perceber, com efeito, quando só se olham as máquinas. Mas se dermos uma olhadela nos meninos, veremos que um está absorvido por sua vigilância, e que o outro está livre para divertir-se à vontade, e que, por esse aspecto, a diferença entre as duas máquinas é radical, a primeira mantendo a atenção prisioneira, a segunda lhe dando livre trânsito. Diferença do mesmo gênero, segundo cremos, é a que se verificaria entre o cérebro do animal e o cérebro do homem.

Bergson, Henri (1859-1941)


Cartas, conferências e outros escritos. Traduções de Franklin Leopoldo e Silva e Nathanael Caxeiro. São Paulo: Abril Cultural (Os pensadores), 1984. p.205
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