segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Balada das arquivistas

Oh, jovens anjos cativos 
Que as asas vos machucais 
Nos armários dos arquivos! 
Delicadas funcionárias 
Designadas por padrões 
Prisioneiras honorárias 
Da mais fria das prisões 
É triste ver-vos, suaves 
Entre monstros impassíveis 
Trancadas a sete chaves: 
Oh, puras e imarcescíveis!
Dizer que vós, bem-amadas 
Conservai-vos impolutas 
Mesmo fazendo a juntada 
De processos e minutas! 
Não se amargam vossas bocas 
De índices e prefixos 
Nem lembram os olhos das loucas 
Vossos doces olhos fixos. 
Curvai-vos para colossos 
Hollerith, de aço hostil 
Como se fora ante moços 
Numa pavana gentil. 
Antes não classificásseis 
Os maços pelos assuntos 
Criando a luta de classes
Num mundo de anseios juntos! 
Enfermeiras de ambições 
Conheceis, mudas, a nu 
O lixo das promoções 
E das exonerações 
A bem do serviço público. 
Ó Florences Nightingale 
De arquivos horizontais: 
Com que zelo alimentais 
Esses eunucos leais 
Que se abrem com chave yale ! 
Vossa linda juventude 
Clama de vós, bem-amadas! 
No entanto, viveis cercadas 
De coisas padronizadas 
Sem sexo e sem saúde... 
Ah, ver-vos em primavera 
Sobre papéis de ocasião 
Na melancólica espera 
De uma eterna certidão! 
Ah, saber que em vós existe 
O amor, a ternura, a prece
E saber que isso fenece 
Num arquivo feio e triste! 
Deixai-me carpir, crianças 
A vossa imensa desdita 
Prendestes as esperanças 
Numa gaiola maldita. 
Do fundo do meu silêncio 
Eu vos incito a lutardes 
Contra o Prefixo que vence 
Os anjos acorrentados 
E ir passear pelas tardes 
De braço com os namorados.

Vinícius de Moraes (1913-1980)


http://www.letras.ufmg.br/site/e-livros/poemastrabalhadores-site.pdf


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