| Mario Testino |
| Mario Testino https://veja.abril.com.br/coluna/veja-gente/o-ensaio-de-mario-testino-com-ambulantes-das-praias-do-rio/ |
Coletânea de excertos sobre as várias faces do trabalho, escolhidos a partir de muitas e prazerosas leituras de textos literários e afins (com algumas ilustrações)
Consultor: 1.Pessoa cujo trabalho é reconhecido em uma determinada área de atuação e é trazida à empresa, como funcionário terceirizado, para oferecer novas perspectivas sobre o funcionamento dela. Em geral, essa pessoa exibe um currículo que enumera vários clientes altamente conceituados para quem ela já prestou seus serviços; é habilíssima na utilização de grossos marcadores ou canetas hidrográficas e grandes blocos de papel montados sobre cavaletes. Tais pessoas também gostam muito de falar sobre suas vidas itinerantes e sobre os quartos de hotéis em que vivem - os quais costumam ser melhores do que o apartamento em que você vive – à custa das empresas que atendem. Elas podem se apresentar como “familiares”, muito amigáveis e com grandes preocupações concernentes ao bem-estar social dos trabalhadores, para ganhar sua confiança e honestidade. Todavia, é importante lembrar-se de que essas pessoas não estarão do seu lado, pois, em última análise, não é você quem paga o salário delas.
2. Uma pessoa trazida de fora da empresa para fazer o trabalho sujo. Se há consultores rondando pela empresa em que você trabalha – especialmente se forem representantes de grandes companhias -, é melhor você tirar o pó do seu currículo, porque, em breve, cabeças irão rolar. Como se fossem androides, os consultores chegam a uma empresa para avaliar e organizar os procedimentos operacionais e sua eficiência, e, então, dizem aos diretores quem eles devem demitir. Consultores podem se aproximar de você para discutir seus procedimentos com eles, mas o que estarão fazendo, na verdade, é determinar se você é dispensável.
3. Indivíduos extremamente bem remunerados porque fazem
duas coisas que os executivos lhes abrem todos os caminhos para que sejam
feitas: dar feedback negativo a
outros executivos de alto escalão e demitir pessoas. Verdadeiros catedráticos
na arte de proferir besteiras corporativas, excelentes no ato de agregar valor e especialistas em gerenciamento de mudanças.
Lois Beckwith
Dicionário de
besteiras corporativas: um glossário de A a Z dos termos sem sentido, irritantes
e francamente estúpidos utilizados na conversação empresarial. Tradução Drago.
São Paulo: Matrix, 2009. p.63.
Já mencionei que minha profissão era de engenheira especializada em projetos de pontes? Construí pontes na Síria e na Líbia, e também na Polônia, perto de Elblag, e duas em Podláquia. Aquela ponte na Síria era estranha – ligava as margens de um rio que aparecia apenas sazonalmente -, a água fluía no leito por dois ou três meses, depois a terra quente a absorvia e o leito se transformava em algo como uma pista de bobsled por onde corriam cães selvagens do deserto.
O que me dava mais
prazer era transformar uma ideia em números - deles surgia uma imagem concreta,
depois um esboço, e então um projeto. Os números juntavam-se em minha folha de
papel e lá se ajeitavam de uma forma compreensível. Gostava muito daquilo. Meu
talento em álgebra foi útil na época em que era preciso fazer todas as contas
com uma régua de cálculo para elaborar um mapa astral. Hoje em dia é desnecessário;
há programas de computador só para isso. Quem ainda se lembraria da régua
quando o remédio para qualquer sede de conhecimento está apenas a um clique?
Olga Tokarczuk (1962-)
Sobre os ossos dos
mortos. Tradução de Olga Baginska-Shinzato. São Paulo: Todavia, 2019. p 108.
Bate bate meu tear
Estavam perante uma árvore com alto saiote de ferimentos e cicatrizes. De tão martirizada, a casca da pobrezita crescera na parte inferior em desproporção com a cimeira e dir-se-ia postiço esse revestimento de rugas negras, de algumas das quais brotavam filamentos de “sernambi”.
Firmino meteu a mão
entre um grupo de plantas e de lá tirou o machadinho, que era um dos poucos
diminutivos bem empregados na selva.
_Isto é que é a
seringueira?
_É, é. Ah, você ainda
não conhecia?...
Pôs-se nos bicos dos
pés e começou a lição:
_Olhe, você. Pega-se
no machadinho e se corta assim... Está vendo? Assim, que é para não arrancar a casca
e não fazer mal ao pau. Quando se arranca a casca, os empregados vão fazer
queixa de nós ao seu Juca.
Levou o braço a um
arbusto seco, em cuja extremidade, cortada para o efeito, se borcavam, enfiados
uns nos outros, cinco receptáculos de folha, que tinham base redonda e iam
alargando até a boca, onde não caberia uma mão fechada.
_ Isto são as
tigelinhas. Se espeta elas na seringa, pelas bordas. Assim...É preciso ter
cuidado para que a folha fique segura, senão a tigelinha cai e o leite escorre
todo para fora. Está compreendendo?
_ Estou, estou..
Em cinco pontos
diferentes, todos à mesma altura, em volta do tronco, Firmino golpeou a árvore.
_Cada seringueira
leva tantas tigelinhas conforme for a grossura dela. Uma valente, como aquele
piquiá que você está vendo ali, pode levar sete. Uma assim como esta, leva
cinco ou quatro, se estiver fraca. Corta-se de cima para baixo, e quando se
chega abaixo, o machadinho volta acima, porque a madeira já descansou. Seringueiro
malandro faz mutá, mas aqui é proibido.
_ Que é isso?
_Vamos que eu já
lhe explico. Mutá é fazer um jirau com galho de árvore e ir cortar a
seringueira lá em cima, junto à folha. A princípio, dá mais leite; mas depois,
morre.
A mancha, até agora obscura, da plantaria
rasteira e dos arbustos que prolongavam a sombra em que vivia a terra, adquiria
já seu verde natural. A luz conseguira, enfim, transpassar o cerrado e acendia
agora as suas vistosas lâmpadas em todos os desvãos. E não era só claridade
flutuante, como pó bem peneirado; era o sol que fabricava joias refulgentes nos
troncos das árvores- anéis de diademas que matavam o ar soturno das princesas
da floresta. Aquecia e ia-se tornando mais enigmático o silêncio.
Ferreira de Castro
(1898-1974)
A Selva. Obras
completas, volume 1. Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, 1958, p 152-3.
Por falar em inspiração lenta, levei apenas dois anos para escrever O nome da rosa, pela simples razão de que não precisei fazer nenhuma pesquisa sobre a Idade Média. Como disse, minha tese de doutorado foi sobre estética medieval, e dediquei estudos posteriores à Idade Média. Ao longo dos anos, visitei muitas abadias românicas, catedrais góticas e assim por diante. Quando decidi escrever o romance, foi como se abrisse um grande armário no qual, durante décadas, vinha depositando meus arquivos medievais. Todo aquele material estava ali aos meus pés e eu só tive de selecionar o que precisava. Para os romances subsequentes, a situação foi diferente (embora, se selecionasse determinado assunto, era porque eu já tinha alguma familiaridade com ele). Foi por isso que demorei mais para escrever meus romances posteriores- oito anos para O pêndulo de Foucault, seis para A ilha do dia anterior e para Baudulino. [...]
O que faço durante os
anos de gestação literária? Coleciona documentos; visito lugares e desenho
mapas; tomo nota de plantas de edifícios. Ou as vezes de um navio, como foi o
caso de A ilha do dia anterior; e
esboço o rosto dos personagens. Para O nome
da rosa, fiz retratos de todos os monges sobre quem escrevi. Passo esses
anos preparatórios uma espécie de castelo encantado – ou se preferirem, num
estado de retiro autista. Ninguém sabe o que estou fazendo, nem a minha família.
Dou a impressão de realizar uma série de atividades distintas, mas estou sempre
concentrado na captura de ideias, imagens e palavras para minha história. [...]
Na preparação de O pêndulo de Foucault, passei
noite após noite, até a hora do encerramento, andando pelos corredores do
Conservatoire des Arts et Métiers, onde sucedem alguns dos principais eventos
de minha história.
[...] Para narrar
algo, você começa como uma espécie de demiurgo criador de um mundo – um mundo
que precisa ser o mais fiel possível, de modo que você possa locomover-se nele
com total segurança.
[...] Durante os
preparativos para a criação de A ilha do
dia anterior, evidentemente viajei para os Mares do Sul, para a exata
localização geográfica onde o livro se passa, a fim de contemplar as cores da água
e do céu em horas diferentes do dia, além dos matizes dos peixes e dos corais. Mas
também passei dois ou três anos estudando os desenhos e os modelos de embarcações
da época, para descobrir as dimensões de uma cabine ou de um compartimento e
para saber como locomover-se de uma até o outro.
Umberto Eco
(1932-2016)
Confissões de um jovem romancista. Tradução de
Marcelo Pen. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p 13 a 18.
Pelo fato de, em sua boa-fé simplória, a classe operária ter-se deixado doutrinar, pelo fato de, com sua impetuosidade inata, ter-se precipitado às cegas no trabalho e na abstinência, a classe capitalista viu-se condenada à preguiça e aos prazeres forçados, à improdutividade e aos superconsumismo. Mas se o sobretrabalho do operário amortalha sua carne e estraçalha seus nervos, também é fecundo em dores para o burguês.
A abstinência à qual
se condena a classe produtora obriga os burgueses a se dedicarem ao superconsumo
dos produtos manufaturados desordenadamente. No começo da produção capitalista,
há um ou dois séculos, o burguês era um homem acomodado, de hábitos razoáveis e
ordeiros, contentava-se com sua mulher, ou quase isso, bebia e comia na medida
de sua sede e de sua fome. Deixava aos cortesãos as nobres virtudes da vida
depravada. Hoje, não há filho de novo rico que não se sinta obrigado a
desenvolver a prostituição e a mercurializar seu corpo a fim de dar um sentido
ao labor que se impõem os operários das minas de mercúrio; não há burguês que não
se empanturre de capão com trufas e de Lafitte a fim de encorajar os criadores
de La Flèche e os vinicultores do Bordelais. Nessa atividade, o organismo
depaupera-se rapidamente, os cabelos caem, os dentes desgastam-se, o tronco
deforma-se, o ventre retorce-se, a respiração embaraça-se, os movimentos ficam
pesados, as articulações emperram, as falanges endurecem. [...]
As mulheres “da
sociedade” levam uma vida de mártires. Para provar e dar sentido às toaletes feéricas
que os costureiros se matam fazendo, de manhã à noite elas mudam de vestido;
durante horas entregam suas cabeças ocas aos artistas capilares que, a todo
preço, querem dar largas a suas paixões pelos andaimes de falsos carrapitos. Encerradas
em seus espartilhos, apertadas em suas botas, decotadas a ponto de fazer corar
um frade de pedra, rodam noites inteiras em seus bailes de caridade a fim de
juntar alguns centavos para os pobres. Santas almas!
A fim de desempenhar
sua dupla função social de não produtor e superconsumidor, o burguês teve não
apenas de violentar seus modestos gostos, perder seus hábitos laboriosos de há
dois séculos e entregar-se ao luxo desenfreado, a indigestões e às depravações
sifilíticas, como também teve de subtrair do trabalho produtivo uma enorme
massa de homens a fim de conseguir auxiliares[...]
A toda essa classe
doméstica, cuja grandeza indica o grau alcançado pela civilização capitalista,
deve-se acrescentar a numerosa classe dos infelizes dedicados exclusivamente à
satisfação dos gostos dispendiosos e fúteis das classes ricas, os lapidadores
de diamantes, bordadeiras, rendeiras, encadernadores de luxo, costureiras de
luxo, decoradoras das casas de veraneio etc.
Uma vez acocorada na
preguiça absoluta e desmoralizada pelo gozo forçado, a burguesia acomodou-se a
seu novo tipo de vida. E toda mudança ela encara com horror. A imagem das miseráveis
condições de existência, aceitas com resignação pela classe operária, e a da
degradação orgânica gerada pela paixão depravada do trabalho aumenta ainda mais
sua repulsa diante de toda imposição do trabalho e de qualquer restrição dos
prazeres.
Paul Lafargue (1842-1911)
O direito à preguiça.
Tradução de J. Teixeira Coelho Netto. São Paulo: Hucitec/Unesp, 1999, p 90-94