domingo, 30 de janeiro de 2022

Bate, bate meu tear

 Bate bate meu tear

que chegou a tua hora
E com ou sem tecedeira
bate não te vás embora

A minha teia está posta
à espera do teu bater
Bate bate meu tear
bate até eu responder

Ai bate bate
Meu tear bate, bate, bate
Não esmoreças bate assim:
Por mim por ti sem ter fim
Bate bate

Bate bate meu tear
Vá, não deixes de bater
Põe a trama a reclamar
Diz o que tens pra dizer

E tanto bate o tear
Como o coração da gente
Um a sentir quando bate
outro a bater quando sente

Bate bate meu tear
acerta a tua pancada
Que a tecedeira morreu
E eu cá de ti não sei nada

Bate bate meu tear

Como o coração da gente

Um a sentir quando bate
outro a bater quando sente

credits

                                                                                             from ao longe já se ouvia, released October 6, 2017
                                                                                              Música de Amélia Muge
                                                                                              Arranjo Sopa de Pedra, Sara Yasmine, António Serginho

license

                                                                                                                                                                                       

https://www.youtube.com/watch?v=TcfIoL-PLsQ



quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Times Square

 

Sabine Weiss ( 1924-2021)

Seringueiro na selva

 

Estavam perante uma  árvore com alto saiote de ferimentos e cicatrizes. De tão martirizada, a casca da pobrezita crescera na parte inferior em desproporção com a cimeira e dir-se-ia postiço esse revestimento de rugas negras, de algumas das quais brotavam filamentos de “sernambi”.

Firmino meteu a mão entre um grupo de plantas e de lá tirou o machadinho, que era um dos poucos diminutivos bem empregados na selva.

_Isto é que é a seringueira?

_É, é. Ah, você ainda não conhecia?...

Pôs-se nos bicos dos pés e começou a lição:

_Olhe, você. Pega-se no machadinho e se corta assim... Está vendo? Assim, que é para não arrancar a casca e não fazer mal ao pau. Quando se arranca a casca, os empregados vão fazer queixa de nós ao seu Juca.

Levou o braço a um arbusto seco, em cuja extremidade, cortada para o efeito, se borcavam, enfiados uns nos outros, cinco receptáculos de folha, que tinham base redonda e iam alargando até a boca, onde não caberia uma mão fechada.

_ Isto são as tigelinhas. Se espeta elas na seringa, pelas bordas. Assim...É preciso ter cuidado para que a folha fique segura, senão a tigelinha cai e o leite escorre todo para fora. Está compreendendo?

_ Estou, estou..

Em cinco pontos diferentes, todos à mesma altura, em volta do tronco, Firmino golpeou a árvore.

_Cada seringueira leva tantas tigelinhas conforme for a grossura dela. Uma valente, como aquele piquiá que você está vendo ali, pode levar sete. Uma assim como esta, leva cinco ou quatro, se estiver fraca. Corta-se de cima para baixo, e quando se chega abaixo, o machadinho volta acima, porque a madeira já descansou. Seringueiro malandro faz mutá, mas aqui é proibido.

_ Que é isso?

_Vamos que eu já lhe explico. Mutá é fazer um jirau com galho de árvore e ir cortar a seringueira lá em cima, junto à folha. A princípio, dá mais leite; mas depois, morre.

 A mancha, até agora obscura, da plantaria rasteira e dos arbustos que prolongavam a sombra em que vivia a terra, adquiria já seu verde natural. A luz conseguira, enfim, transpassar o cerrado e acendia agora as suas vistosas lâmpadas em todos os desvãos. E não era só claridade flutuante, como pó bem peneirado; era o sol que fabricava joias refulgentes nos troncos das árvores- anéis de diademas que matavam o ar soturno das princesas da floresta. Aquecia e ia-se tornando mais enigmático o silêncio.

 

Ferreira de Castro (1898-1974)

 

A Selva. Obras completas, volume 1. Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, 1958, p 152-3.

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Gestação literária

 

Por falar em inspiração lenta, levei apenas dois anos para escrever O nome da rosa, pela simples razão de que não precisei fazer nenhuma pesquisa sobre a Idade Média. Como disse, minha tese de doutorado foi sobre estética medieval, e dediquei estudos posteriores à Idade Média. Ao longo dos anos, visitei muitas abadias românicas, catedrais góticas e assim por diante. Quando decidi escrever o romance, foi como se abrisse um grande armário no qual, durante décadas, vinha depositando meus arquivos medievais. Todo aquele material estava ali aos meus pés e eu só tive de selecionar o que precisava. Para os romances subsequentes, a situação foi diferente (embora, se selecionasse determinado assunto, era porque eu já tinha alguma familiaridade com ele). Foi por isso que demorei mais para escrever meus romances posteriores- oito anos para O pêndulo de Foucault, seis para A ilha do dia anterior e para Baudulino.  [...]

O que faço durante os anos de gestação literária? Coleciona documentos; visito lugares e desenho mapas; tomo nota de plantas de edifícios. Ou as vezes de um navio, como foi o caso de A ilha do dia anterior; e esboço o rosto dos personagens. Para O nome da rosa, fiz retratos de todos os monges sobre quem escrevi. Passo esses anos preparatórios uma espécie de castelo encantado – ou se preferirem, num estado de retiro autista. Ninguém sabe o que estou fazendo, nem a minha família. Dou a impressão de realizar uma série de atividades distintas, mas estou sempre concentrado na captura de ideias, imagens e palavras para minha história. [...] Na preparação de O pêndulo de Foucault, passei noite após noite, até a hora do encerramento, andando pelos corredores do Conservatoire des Arts et Métiers, onde sucedem alguns dos principais eventos de minha história.

[...] Para narrar algo, você começa como uma espécie de demiurgo criador de um mundo – um mundo que precisa ser o mais fiel possível, de modo que você possa locomover-se nele com total segurança.

[...] Durante os preparativos para a criação de A ilha do dia anterior, evidentemente viajei para os Mares do Sul, para a exata localização geográfica onde o livro se passa, a fim de contemplar as cores da água e do céu em horas diferentes do dia, além dos matizes dos peixes e dos corais. Mas também passei dois ou três anos estudando os desenhos e os modelos de embarcações da época, para descobrir as dimensões de uma cabine ou de um compartimento e para saber como locomover-se de uma até o outro.

 

Umberto Eco (1932-2016)

  

 Confissões de um jovem romancista. Tradução de Marcelo Pen. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p 13 a 18.

 

sábado, 4 de dezembro de 2021

Sobretrabalho operário e superconsumo burguês

Pelo fato de, em sua boa-fé simplória, a classe operária ter-se deixado doutrinar, pelo fato de, com sua impetuosidade inata, ter-se precipitado às cegas no trabalho e na abstinência, a classe capitalista viu-se condenada à preguiça e aos prazeres forçados, à improdutividade e aos superconsumismo. Mas se o sobretrabalho do operário amortalha sua carne e estraçalha seus nervos, também é fecundo em dores para o burguês.

A abstinência à qual se condena a classe produtora obriga os burgueses a se dedicarem ao superconsumo dos produtos manufaturados desordenadamente. No começo da produção capitalista, há um ou dois séculos, o burguês era um homem acomodado, de hábitos razoáveis e ordeiros, contentava-se com sua mulher, ou quase isso, bebia e comia na medida de sua sede e de sua fome. Deixava aos cortesãos as nobres virtudes da vida depravada. Hoje, não há filho de novo rico que não se sinta obrigado a desenvolver a prostituição e a mercurializar seu corpo a fim de dar um sentido ao labor que se impõem os operários das minas de mercúrio; não há burguês que não se empanturre de capão com trufas e de Lafitte a fim de encorajar os criadores de La Flèche e os vinicultores do Bordelais. Nessa atividade, o organismo depaupera-se rapidamente, os cabelos caem, os dentes desgastam-se, o tronco deforma-se, o ventre retorce-se, a respiração embaraça-se, os movimentos ficam pesados, as articulações emperram, as falanges endurecem. [...]

As mulheres “da sociedade” levam uma vida de mártires. Para provar e dar sentido às toaletes feéricas que os costureiros se matam fazendo, de manhã à noite elas mudam de vestido; durante horas entregam suas cabeças ocas aos artistas capilares que, a todo preço, querem dar largas a suas paixões pelos andaimes de falsos carrapitos. Encerradas em seus espartilhos, apertadas em suas botas, decotadas a ponto de fazer corar um frade de pedra, rodam noites inteiras em seus bailes de caridade a fim de juntar alguns centavos para os pobres. Santas almas!

A fim de desempenhar sua dupla função social de não produtor e superconsumidor, o burguês teve não apenas de violentar seus modestos gostos, perder seus hábitos laboriosos de há dois séculos e entregar-se ao luxo desenfreado, a indigestões e às depravações sifilíticas, como também teve de subtrair do trabalho produtivo uma enorme massa de homens a fim de conseguir auxiliares[...]

A toda essa classe doméstica, cuja grandeza indica o grau alcançado pela civilização capitalista, deve-se acrescentar a numerosa classe dos infelizes dedicados exclusivamente à satisfação dos gostos dispendiosos e fúteis das classes ricas, os lapidadores de diamantes, bordadeiras, rendeiras, encadernadores de luxo, costureiras de luxo, decoradoras das casas de veraneio etc.

Uma vez acocorada na preguiça absoluta e desmoralizada pelo gozo forçado, a burguesia acomodou-se a seu novo tipo de vida. E toda mudança ela encara com horror. A imagem das miseráveis condições de existência, aceitas com resignação pela classe operária, e a da degradação orgânica gerada pela paixão depravada do trabalho aumenta ainda mais sua repulsa diante de toda imposição do trabalho e de qualquer restrição dos prazeres.

 

 

Paul Lafargue (1842-1911)

 

 

O direito à preguiça. Tradução de J. Teixeira Coelho Netto. São Paulo: Hucitec/Unesp, 1999, p 90-94

  

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

domingo, 28 de novembro de 2021

O preço do açúcar

Ao se aproximar da cidade, eles encontraram um negro estendido no chão, apenas com metade de sua roupa, ou seja, um calção de pano azul. O pobre homem não tinha a perna esquerda nem a mão direita. “Ah! Meu Deus, lhe disse Cândido, em holandês, que fazes tu aqui, meu amigo, nesse estado terrível em que te vejo? ” “Eu espero, meu senhor, o Sr Vanderdendur, o famoso negociante”. respondeu o negro. “Foi o Sr. Vanderdendur que te tratou assim? ” “Sim senhor, disse o negro, é o costume. Eles nos dão como vestimenta um calção de pano, duas vezes por ano. Quando trabalhamos nos engenhos de cana de açúcar, e a moenda nos tira o dedo, eles nos cortam a mão; quando queremos fugir, nos cortam a perna. Isso me aconteceu nos dois casos. É a esse preço que vós comeis açúcar na Europa. Porém, quando minha mãe me vendeu por dez escudos patagões na costa da Guiné ela me dizia: meu querido filho, abençoe nossos fetiches, adore-os sempre, eles te farão viver feliz, tu tens a honra de ser escravo de nossos senhores brancos, e assim farás a fortuna de teu pai e de tua mãe”. Infelizmente, eu não sei se lhes fiz a fortuna, mas eles não fizeram a minha. Os cachorros, os macacos e os papagaios são mil vezes menos infelizes que nós. Os fetiches holandeses que me converteram me dizem, todos os domingos, que somos todos filhos de Adão, brancos e negros. Eu não sou genealogista, mas se esses pregadores dizem a verdade, somos todos primos, vindos dos alemães. Ora, o senhor há de convir que não se pode tratar seus parentes de uma maneira mais horrível.

 

 

 Voltaire (François-Marie Arouet) (1694-1778)

 

Cândido ou o Otimismo

https://www.ebooksgratuits.com/blackmask/voltaire_candide.pdf

(Tradução minha)

 

domingo, 17 de outubro de 2021

Visita à fábrica de latão

Imagino que se alguém escutasse no rádio algo como “visita à fabrica de latão”, iria pensar: “mais uma daquelas ideias idiotas. É impossível descrever um lugar como esse, é preciso ir lá e ver de perto”. Se o nosso ouvinte ainda não girou o botão desligando o rádio, peço a ele um pouco mais de paciência, pois é exatamente a ele que vou me dirigir.

Uma coisa devo admitir logo de início: só é possível descrever uma pequena parte do que se vê. Ainda não nasceu o escritor ou o poeta capaz de descrever, de forma que o leitor possa imaginar do que se trata, um cilindro laminador ou uma tesoura rolante, uma prensa de extrusão ou um laminador a frio de alta potência. Talvez um engenheiro pudesse. Mas ainda assim, ele faria um desenho. E o observador? Penso aqui em um de vocês, por exemplo, que chegasse à fábrica de latão Hirsch-Kupfer em Eberswalde e ficasse diante de uma destas máquinas que têm nomes quase impronunciáveis. O que ele veria ali? Muito simples: nem mais nem menos do que eu posso descrever aqui com palavras. Ou seja, nada. Pois qual seria o interesse de descrever essas máquinas por fora? Elas não são feitas para serem vistas, a não ser por alguém que, conhecendo perfeitamente seu mecanismo, seu desempenho e sua finalidade, saiba exatamente o que precisa verificar ali. Só podemos compreender exatamente o que se passa no exterior, se conhecemos o interior; isso vale tanto para as máquinas quanto para os seres vivos.

Mas vocês não vão conhecer uma máquina por dentro ficando simplesmente parados na frente dela. Vamos imaginar que vocês estivessem em um daqueles pavilhões gigantescos: já seria interessante ver como a mistura que será transformada em latão é despejada nos fornos, como as placas de latão vão saindo dali, como as chapas entram no laminador, grossas e curtas, e saem finas e longas, como os pequenos cilindros redondos são introduzidos automaticamente na prensa e saem do outro lado na forma de longos tubos bem acabados. Tudo isso vocês iriam ver. Mas não veriam como tudo funciona e, com o barulho monstruoso das máquinas trabalhando, das gruas se deslocando e das cargas caindo ao chão, ninguém poderia explicar a vocês.

Por isso, pode-se dizer: quanto mais se quer familiarizar-se com os diversos processos de uma fábrica tão colossal e ter a chance de compreender um pouco do que se passa, se um dia há a oportunidade de uma visita, tanto mais se deve recuar a vista. Vamos fazer como se nossos poucos minutos no rádio fossem a gôndola de um balão, da qual captamos lá de cima um panorama do funcionamento da fábrica de latão Hirsch-Kupfer, selecionando os pontos centrais que a nossa inteligência deve primeiramente abranger, para então alcançar uma visão do todo. Ainda assim, nossa dificuldade será bem grande. Pois esses pontos são vários. Para começar tem a ciência, tudo o que a física e a química têm a nos dizer sobre o latão.[   ] Ou nós podemos olhar a coisa por outro lado: o que uma fábrica como essa precisa produzir para alcançar boas vendas? O que é fabricado ali? [...] Ou um outro ponto central: como nasce uma gigantesca empresa como esta, que possui aproximadamente 2000 trabalhadores e cerca de 400 funcionários em sua fábrica? [...] Temos que seguir assim com os pontos centrais para tentar abranger o que, talvez, se poderia entender como o todo.

 

 

Walter Benjamin (1892-1940)

 

A hora das crianças: narrativas radiofônicas de Walter Benjamin. Tradução de Aldo Medeiros. Rio de Janeiro: Nau Ed., 2015. p 107-109