segunda-feira, 8 de junho de 2020

Ornitorrinco


Jamilton
nasceu no Pará
numa usina de carvão.
Como o pai -seu Vavá -
também começou aos seis
com uma pá na mão.
Cresceu sem vitaminas
cheirando fumaça
e inalando dioxinas.
A brasa
queima os sonhos
a pele
os pés
e as mãos.
Só não queima
o catarro preto
que sai do pulmão.
Aos onze
doente e mutilado
depois de tanto trabalhar
o menino churrasco
por invalidez
vai se aposentar.
Carne de segunda
este bicho
não tem pelo
não tem pena
só osso.
Os dedos
unidos pelo fogo
parecem uma pata.
Também pudera
ele é filho
de um animal estranho:
gente.

Sérgio Vaz (1964-)


Colecionador de Pedras. São Paulo: Global, 2013, p 35-36.

Cal Max


Max nasceu pobre.
Na verdade,
nasceu Maximiliano
da Silva Nobre.

Curtido na pedra
criou-se vidraça,
e como o pai
também era pintor,
mas nada de Picasso,
Van Gogh ou Portinari:
pintava parede, mansão,
muro e pé de árvore.
Não tinha sonhos,
mas se sonhasse,
seriam pretos
seriam brancos
cinzas de fato.
Morava em bairro comunista:
os vizinhos tinham em comum
a mesma miséria.
As mãos grossas
nunca fizeram carinho...
Pra ele? Frescura.
No enterro,
depois que caiu do andaime,
pouca gente
pouco choro
nenhuma madame.
Lembranças?
Só a última pá de cal...
Jaz.



Sérgio Vaz (1964-)


Colecionador de Pedras. São Paulo: Global, 2013, p 46-47.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Os trabalhos dos forçados

Muito trabalho dos forçados é consumido na mera satisfação das necessidades básicas da prisão. Todo dia, na prisão, trabalham cozinheiros, padeiros, alfaiates, sapateiros, aguadeiros, lavadores de chão, faxineiros, vaqueiros etc. O trabalho dos forçados também é usado no campo militar e na telegrafia; cerca de cinquenta pessoas formam a equipe que trabalha na enfermaria da prisão, não se sabe em que e para quê, e nem há como calcular aqueles que estão a serviço particular dos senhores funcionários. Todo funcionário, mesmo um mero assistente de escritório, até onde pude verificar, pode tomar para si criados em quantidade ilimitada. O médico, em cuja casa me hospedei e que morava sozinho e com o filho, tinha um cozinheiro, um porteiro, uma ajudante de cozinha e uma arrumadeira. Para um médico assistente de prisão, isso é muito luxo. Um inspetor da prisão tinha oito serviçais particulares: uma costureira, um sapateiro, uma arrumadeira, um lacaio, além de um menino de recados, uma babá, uma lavadeira, um cozinheiro e um lavador de chão. A questão dos criados em Sacalina é algo triste e ultrajante, como é, com certeza, em toda parte em que existem trabalhos forçados, e tampouco se trata de uma questão nova.




Anton Tchékhov (1860-1904)



A ilha de Sacalina: notas de viagem. Tradução de Rubens Figueiredo. São Paulo: Todavia, 2018, p86-87

A galvanização


O galpão estreito e úmido. O chão sempre cheio de água e ácidos. No meio as cubas. De um lado o tanque com ácido muriático para a limpeza das peças de ferro. Os tubos, barras e cantoneiras; peças já montadas ou parafusos e porcas passam primeiro por esse tanque para a limpeza geral. Depois são mergulhados na cuba do fluxo, concentrado de ácidos, e acaba a limpeza. Daí, através de talhas manejadas com muito esforço, as peças são levadas ao banho de zinco. O forno derrete os blocos de zinco que, a uma temperatura de determinados graus, espera o ferro para aderir a ele. Os homens que manejam as talhas suspendem as peças em cima da cuba de zinco e rapidamente se escondem atrás de uma espécie de cabine com um visor de vidro. Todos os operários da galvanização correm para se abrigar e os ferros mergulham no zinco provocando diversas explosões. O zinco fervendo, derretido, pula em qualquer direção. Passados pouco minutos e acabadas as explosões, os operários suspendem as peças de ferro, brilhantes, vestidas de zinco. Um novo esforço para levá-las até o tanque de resfriamento. Lá mergulham de novo. A água espirra ao contato com as peças quentes. Saindo da água as peças estão prontas para enfrentar a chuva e o calor; defendidas contra a ferrugem, se converterão em torres de eletrificação esquecidas no meio do mato, trazendo a corrente elétrica desde as usinas hidroelétricas até as cidades.
O galpão é estreito, úmido e obscuro, o chão sempre molhado de água e ácidos. Os operários com botas de borracha até os joelhos, luvas que cobrem as mãos e braços, com as camisas rasgadas ou sem camisa. Muitos deles com marcas de queimadura de zinco nas costas ou braços. O suor brilha na musculatura forte. O calor sufoca. O esforço grande, a tensão à flor da pele. Os ácidos se agarram às narinas, à garganta e aos pulmões. Amônia, ácido muriático, zinco, alumínio, cloreto de amônio e chumbo; todos esses elementos entram em jogo para a galvanização.
Os homens da galvanização se movem como sombras, correm, saltam, se escondem das explosões, voltam a aparecer no galpão estreito, úmido, obscuro e sujo. Os rostos sérios e tristes. Em toda a fábrica se brinca, se caçoa: na galvanização, não. É o trabalho mais duro e o menos remunerado no capitalismo subdesenvolvido.



Ignácio Hernandez (1932- )


Memória operária, Cidade Industrial Contagem (BH) 1968-1978. Belo Horizonte: Vega, 1979, pp138-139

O trabalho noturno



As fábricas de estruturas metálicas e caldeiraria, como outras, devido às concorrências, têm épocas com excesso de trabalho e outras em que o serviço praticamente para, às vezes dois ou mais meses. É a falta de planejamento do sistema capitalista ou a saturação dos mercados, ou então a livre concorrência em que o mais forte engole o mais fraco, papel que no caso fica com a fábrica parada. Esta é a época de dispensar um bom número de operários. Quando o serviço normalizar, outros serão admitidos com salário menor. E quando tiver excesso de trabalho, todo o mundo trabalhará até as 20 ou 22 horas. E muitos serão “convidados” a trabalhar a noite toda, durante semanas ou meses.
As horas noturnas correm lentas, arrastadas, não contadas pelo sol, mas pela escuridão. O trabalho noturno consome os nervos do trabalhador. Os raios de luz da solda se tornam tão brilhantes como os de um sol em miniatura e castigam os olhos dos outros operários. Os soldadores se espalham pela fábrica de maneira que o montador e os outros soldadores se sentem perseguidos pelos raios de luz. São oito horas, muitas vezes dez ou doze, que parecem a eternidade. É como se o relógio parasse e o tempo se tornasse fixo como as estrelas. O montador risca as chapas de ferro, mas os reflexos, as luzes e as sombras não permitem enxergar os riscos. Os raios intensos de solda queimam as vistas. O operário vira-se de costas, mas outro eletrodo se acende em um outro ponto e ele se encontra cercado por raios de pequenos sóis. As horas passam lentas, o friozinho da madrugada penetra o corpo sonolento e o tempo continua parado até o céu negro começar a clarear. Às sete horas, outros começam o trabalho normal e o que trabalhou à noite está largando para chegar em casa às oito ou oito e meia, comer alguma coisa e deitar para dormir um sono esquisito, quando tudo é vida e movimento na casa e na rua. Às três e meia da tarde acorda, almoça, senta na porta da casa vendo o sol declinar e se prepara para outra noite de trabalho.
Vida estranha a de quem trabalha à noite. Vida angustiante de quem não faz outra coisa senão trabalhar, comer e dormir. Não há tempo para mais nada. Dificilmente alguém se acostuma a esta vida, mas é fácil ficar com os nervos abalados.




Ignácio Hernandez (1932- )

Memória operária, Cidade Industrial Contagem (BH) 1968-1978. Belo Horizonte: Vega, 1979, pp 45-46.


quinta-feira, 7 de maio de 2020

Inventor do trabalho

O tal que inventou o trabalho
Só pode ter uma cabeça oca
Pra conceber tal ideia,
Que coisa louca.
O trabalho dá trabalho demais
E sem ele não se pode viver
Ma há tanta gente no mundo
que trabalha sem nada obter
Somente pra comer.
Contradigo o meu protesto
Com referência ao inventor
A ele cabe menos culpa
Por seu invento causar pavor.
Dona Necessidade  é senhora absoluta da minha situação.
Trabalhar e batalhar por uma nota curta.


Oscar da Penha (Batatinha)  1924-1997

Pedreiro Waldemar

Você conhece o pedreiro Waldemar?
Não conhece?
Mas eu vou lhe apresentar.
De madrugada toma o trem da Circular
Faz tanta casa e não tem casa pra morar.
Leva marmita embrulhada no jornal,
Se tem almoço, nem sempre tem jantar.
O Waldemar que é mestre no ofício
Constrói um edifício
E depois não pode entrar.

 Wilson Batista (1913-1968) e Roberto Martins ( 1909-1992) ( Blecaute) , 1919-1983.




 Interpretação de Blecaute ( 1919-1983)

domingo, 29 de março de 2020

A estátua de mármore e a estátua de murta


A Estátua de mármore custa muito a fazer, pela dureza e resistência da matéria; mas depois de feita uma vez, não é necessário que lhe ponham mais a mão, sempre conserva e sustenta a mesma figura: a Estátua de murta é muito mais fácil de formar, pela facilidade com que se dobram os ramos; mas é necessário andar sempre reformando e trabalhando nela, para que se conserve. Se deixa o jardineiro de assistir, em quatro dias sai um ramo que lhe atravessa os olhos; sai outro, que lhe descompõe as orelhas: saem dois, que de cinco dedos lhe fazem sete; e o que pouco antes era um homem, já é uma confusão verde de murtas. Eis aqui a diferença que há entre umas nações e outras na doutrina da Fé. Há umas nações naturalmente duras, tenazes e constantes, as quais dificultosamente recebem a fé e deixam os erros de seus antepassados: resistem com as armas, duvidam com o entendimento, repugnam com a vontade, cerram-se, teimam, argumentam, replicam, dão grande trabalho até se renderem; mas uma vez rendidas, uma vez que receberam a Fé, ficam nela firmes e constantes como Estátuas de mármore, não é necessário trabalhar mais com eles. Há outras nações pelo contrário (e estas são as do Brasil) que recebem tudo o que lhes ensinam, com grande docilidade e facilidade, sem argumentar, sem replicar, sem duvidar, sem resistir; mas são Estátuas de murta, que em levantando a mão e a tesoura o jardineiro, logo perdem a nova figura, e tornam à bruteza antiga e natural, e a ser mato como dantes eram. É necessário que assista sempre a estas Estátuas o mestre delas, uma vez que lhe corte o que vicejam os olhos, para que creiam o que não vêem; outra vez para que lhe cerceie o que vicejam as orelhas, para que não dêem ouvidos às fábulas de seus antepassados; outra vez que lhe decepe o que vicejam as mãos e os pés, para que se abstenham das ações e costumes bárbaros da gentilidade. E só desta maneira, trabalhando sempre contra a natureza do tronco e humor das raízes, se pode conservar nestas plantas rudes a forma não natural e compostura dos ramos.

[  ] E para se aproveitar e lograr o trabalho, há de ser com outro trabalho maior, que é assisti-lo: há de assistir e insistir sempre com eles, tornando a trabalhar o já trabalhado e a plantar o já plantado e a ensinar o já ensinado, não levantando jamais a mão da obra, porque sempre está por obrar, ainda depois de obrada.


Antonio Vieira (1608-1697)

Sermão do Espírito Santo, pronunciado em 1657 na Igreja da Companhia de Jesus, em São Luís do Maranhão. Em Sermões, Tomo I, org. Alcir Pécora. Hedra, São Paulo, 2000.

O homem é um animal fazedor


O homem não faz nada segundo a natureza: é, ouso me exprimir assim, um animal fazedor. Nada lhe agrada se ele não lhe dá um tratamento: tudo que toca, ele precisa arranjar, corrigir, aperfeiçoar, recriar. Para o prazer de seus olhos ele inventa pintura, arquitetura, as artes plásticas, a decoração, todo um mundo de hors-d’oeuvre, sobre o qual ele não saberia dizer a razão ou a utilidade, se não que é para ele uma necessidade de imaginação, que isso lhe agrada. Para seus ouvidos, ele castiga sua linguagem, conta suas sílabas, mede os tempos de sua voz. Depois, inventa a melodia e os acordes, junta as orquestras a vozes potentes e melodiosas e, nos concertos produzidos, crê escutar a música das esferas celestes e o canto de espíritos invisíveis. Que lhe adianta comer apenas para viver? A sua delicadeza precisa de disfarces, fantasias, um estilo. Ele acha quase chocante se alimentar: não cede à fome, transige com seu estômago. Antes morrer de fome do que pastar a sua comida. A água pura das rochas não é nada para ele: inventa a ambrosia e o néctar. As funções de sua vida que não consegue dominar, ele as chama de vergonhosas, desonestas, ignóbeis. Ele aprende a andar e a correr. Ele tem um método para se deitar, se levantar, se sentar, se vestir, lutar, se governar, fazer justiça; ele até encontrou a perfeição do horrível, o sublime do ridículo, a ideia do feio. Enfim, ele saúda, se dá ao respeito, ele tem por sua pessoa um culto minucioso, ele se adora como uma divindade...
Todas as ações, os movimentos, os discursos, os pensamentos, os produtos, os afetos do homem têm esse caráter de artista. Mas esta arte, é a prática das coisas que a revela, é o trabalho que se desenvolve; de modo que quanto mais a habilidade do homem se aproxima do ideal, mais ele próprio se eleva acima da sensação. O que constitui o atrativo e a dignidade do trabalho é criar pelo pensamento, se livrar de todo mecanismo, eliminar de si a matéria. Esta tendência, ainda fraca na criança inteiramente mergulhada na vida sensitiva, mais marcante no jovem, orgulhoso de sua força e de sua agilidade, mas já sensível ao mérito do espírito, se manifesta cada vez mais no homem maduro. Quem não encontrou esses operários que uma longa assiduidade ao trabalho tornou espontaneamente artistas, a quem a perfeição do trabalho era uma necessidade tão imperiosa como a subsistência, e que, em uma especialidade aparentemente mesquinha, descobriam de repente brilhantes perspectivas?
O que nem a ginástica, nem a política, nem a música, nem a filosofia, reunindo seus esforços, souberam fazer, o trabalho conseguiu. Como nas eras antigas, a iniciação à beleza vinha dos deuses, assim, numa posteridade remota, a beleza se revelará de novo pelo trabalhador, o verdadeiro asceta, e é às inúmeras formas de habilidade que ela demandará sua expressão variável, sempre nova e sempre verdadeira. Então, enfim, o Logos será manifesto, e os laboriosos humanos, mais belos e mais livres como jamais o foram os Gregos, sem nobres e sem escravos, sem magistrados e sem sacerdotes, formarão todos juntos, sobre a terra cultivada, uma só família de heróis, de sábios e de artistas.



Proudhon, Pierre-Joseph (1809-1865)


Philosophie du Progrès. Introduction et notes par Th. Ruyssen. Rivière, 1946. p 422, (tradução minha)