terça-feira, 22 de novembro de 2022

O pequeno engraxate e o prego


 Era sobre uma pesquisa que tinha como objetivo entender a perspectiva

das crianças que viviam nas ruas da cidade [Brasília]. A equipe do projeto

teria entregue a cada menino e menina uma máquina fotográfica, dessas

feitas de lata, e pedira que eles registrassem aquilo que os oprimia. Como

era esperado, surgiram fotos de policiais, garçons e vendedores, figuras

responsáveis por enxotá-los dos lugares por onde costumam circular. Mas

um conjunto de imagens destoava de tudo isso – eram fotografias de uma

parede vazia, com um prego espetado no meio. Uma vez que as imagens

não faziam sentido para a equipe de pesquisadores, chamaram o menino

para conversar sobre o assunto. Ao contrário do que pensavam, ele havia

entendido o que queriam e explicou seu recorte: era engraxate, mas não

tinha autorização para trabalhar em qualquer lugar, por isso alugava

aquele espaço e o prego onde podia pendurar sua caixa. Era aquilo que o

oprimia, a exploração do trabalho.

Regina Dalcastagnè (1967-)

 

O prego e o rinoceronte. Porto Alegre: Zouk, 2021. p.15-16.

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