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| Barrington Watson ( 1931-2016) |
Coletânea de excertos sobre as várias faces do trabalho, escolhidos a partir de muitas e prazerosas leituras de textos literários e afins (com algumas ilustrações)
_Você ainda se lembra da primeira topada sua, Raymundão?
_Ah, seô Major, foi um boi retaco, que
caminhava na gente por gosto e investia de olho aberto e cabeça alteada, feito
vaca...O senhor sabe, esse é o pior que tem, para se escorar...Meu pai, que era
vaqueiro mestre, achou que era o dia de experimentar minha força...Dei certo,
na regra, graças a Deus....
_Você pensou alguma coisa na hora, Raymundão?
Que foi que você sentiu?
_Só, na horinha que o bicho partiu em mim, eu
achei que ele era grande demais, e pensei que, de em-antes, eu nunca tinha
visto um boi grande assim, no meio dos outros...Mas isso foi assim num átimo,
porque depois as mãos e o corpo da gente mexem por si, e eu acho que até a vara
se governa...quando dei fé, a festa tinha acabado, e meu pai estava me dando um
cigarro, que ele mesmo tinha enrolado para mim, o primeiro que eu pitei na
vista dele...E foi falando:_ “Meu filho, tu nasceu para vaqueiro, agora eu sei”...
_Velho inteiro! E a bambeza, depois?
_Não tive, seô Major. Só fome muita, isso
sim. O pior foi que eu piscava, e afundei a cabeça n’água fria, mas sem valer,
porque fiquei o dia com aquele boi nas minhas vistas, que nem um retrato, que
doía até...Era um caraúno caralarga, espácio, com sete anos de idade, com os
cinco anéis no pé do chifre...
Guimarães Rosa, João
(1908-1967)
Sagarana. O burrinho pedrês.
João Guimarães Rosa Ficção completa, Volume 1, Rio de Janeiro: Editora Nova
Aguilar, 1995. p 223.
De dia, saiu-me um poema. Ou melhor: trechos. Ruins. Não se publicaram em parte alguma. Noite. A Avenida Srietiênski. Leio as linhas a Burliuk. Acrescento: são de um conhecido meu. David parou. Olhou-me de alto a baixo. Explodiu: “Mas foi você mesmo quem escreveu isto! Você é um poeta genial! ” Um epíteto assim grandioso e imerecido, aplicado a mim, me alegrou. Imergi inteiramente em versos. Nessa noite, de todo inesperadamente, eu me tornei poeta.
Maiakovski, Vladimir (1893-1930)
Maiakovsky: poemas. Tradução Boris Schnaiderman, Haroldo de Campos, Augusto de Campos. Ed. especial rev. e ampl. São Paulo: Perspectiva, 2017, p 66-67.