| Mahmoud Sabri (1927-2012) |
Coletânea de excertos sobre as várias faces do trabalho, escolhidos a partir de muitas e prazerosas leituras de textos literários e afins (com algumas ilustrações)
| Cândido Portinari (1903-1962) |
De fato, ele estava escrevendo ou mais particularmente: traduzia para o “clássico” um grande artigo sobre “Ferimentos por arma de fogo”. O seu último truque intelectual era este do clássico. Buscava nisto uma distinção, uma separação intelectual desses meninos por aí que escrevem contos e romances nos jornais. Ele, um sábio, e sobretudo, um doutor, não podia escrever da mesma forma que eles. A sua sabedoria superior e o seu título “acadêmico” não podiam usar da mesma língua, dos mesmos modismos, da mesma sintaxe que esses poetastros e literatecos. Veio-lhe então a ideia do clássico. O processo era simples: escrevia do modo comum, com as palavras e o jeito de hoje, em seguida invertia as orações, picava o período com vírgulas e substituía incomodar por molestar, ao redor por derredor, isto por esto, quão grande ou tão grande por quamanho, sarapintava tudo de ao invés, empós, e assim obtinha o seu estilo clássico que começava a causar admiração aos seus pares e ao público em geral.
Gostava muito da expressão – às rebatinhas;
usava-a a todo o momento e, quando a punha no branco do papel, imaginava que
dera ao seu estilo uma força e um brilho pascalianos e às suas ideias uma
suficiência transcendente. De noite, lia o padre Vieira, mas logo às primeiras
linhas o sono lhe vinha e dormia sonhando-se “físico”, tratado de mestre, em
pleno Seiscentos, prescrevendo sangria e água quente, tal e qual o doutor
Sangrado.
Lima Barreto (1881-1922)
Triste fim de Policarpo Quaresma [recurso eletrônico]. Brasília: Câmara dos Deputados, Edições Câmara, 2017 .
Como só continuaríamos a viagem três dias depois, [o fotógrafo] convidou-me a visitar com ele uma charqueada onde estavam trabalhando vários grupos de prisioneiros paraguaios: queria fotografá-los.
Conseguimos cavalos
com um jovem oficial brasileiro e seguimos pouco mais de três léguas para
nordeste, até as margens do Arroio Touro Passo. A charqueada era imensa e produzia
carne para suprir o Exército estacionado no Paraguai. Havia mais de mil e
quinhentos homens trabalhando ali; grandes currais abrigavam os animais
trazidos para o abate, comprados ou capturados em toda a região do pampa -
desde Santa Maria até Santana do Livramento. Matava-se dia e noite. Os tanques
de salmoura estavam sempre cheios de mantas de carne e os varais estendiam-se
por centenas e centenas de metros. A maioria dos trabalhadores era constituída
de prisioneiros de guerra e negros escravos. Oficiais do Exército e alguns
franceses dirigiam os trabalhos. Havia um penetrante e enjoativo cheiro de
sangue no ar.
Kuhn colocava a câmara
sobre o tripé e pedia aos homens para fazerem pose, mas sempre como se
estivessem trabalhando; todos atendiam de boa vontade. Era impossível perceber
naqueles homens quaisquer sinais de que fossem prisioneiros. O que mais me
surpreendeu foi ouvi-los, quase todos, conversando em guarani; não imaginava
que o Exército paraguaio tivesse recrutado tantos índios assim. Não havia
uniformes para os prisioneiros; cada qual se vestia com o que tinha à mão. Como
fazia muito calor, era comum vê-los usando apenas um pano enrolado entre as
pernas e na cintura; lembravam velhas gravuras indianas.
Murilo Carvalho (1949
-)
O rastro do Jaguar. São Paulo: Leya, 2009. p 323-324.
[Em meados do séc.18], já é tempo de dizermos alguma coisa da grande habilidade e aptidão dos índios da América para todas as artes e ofícios...nas missões e casa dos brancos, em que aprendem todos os ofícios que lhes mandam ensinar, com tanta facilidade, destreza e perfeição como os melhores mestres, de sorte que podem competir com os mais insignes do ofício; a muitos bastam verem trabalhar algum oficial na sua mecânica para o imitarem com perfeição...Em uma vila de portugueses havia um índio ferreiro e serralheiro tão insigne, que os mesmos portugueses do mesmo ofício lhe davam não só as primazias, mas também os votos para ser juiz do ofício...No colégio dos padres da Companhia na cidade do Pará estão uns dois grandes anjos por tocheiros com tal perfeição que servem de admiração aos europeus e são a primeira obra que fez um índio daquele ofício.
João Daniel (1722-1776)
In Antonio Porro. Dicionário etno-histórico
da Amazônia colonial. São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiros, 2007, p.171
Famílias como a da
Dra. Maria Carolina de Jesus, bem como a minha e de milhares de brasileiras/os são
marcadas pela exclusão social e econômica, pela exclusão do conhecimento e dos
saberes, mesmo sendo trabalhadoras/es, gerando riquezas, mas apenas ficando
imerso na pobreza e na miséria, em muitos casos, íntimas da fome, excluídas e
indesejadas socialmente. [...] É um definhamento psicológico dormir sem saber
que amanhã pode não haver comida para alimentar os filhos, dinheiro para pagar
as contas, roupas para se aquecer. Vocês não sabem o que é isso? Procurem
ajudar quem infelizmente sabe.
Famílias
caracterizadas pela falta de uma cidade para morar, não desejadas nem no
interior, nas suas cidades natal e muito menos na cidade grande, na cidade as
quais foram obrigadas a morar. Vivendo numa espécie de limbo geográfico, sem
assistência do estado, sem cidadania, com o estado tratando as famílias como
rejeitos sociais, através do qual se tornam problemas caracterizados por serem
indesejáveis. Imaginem sobreviver nessas condições, afastados de seus
familiares, longe e expulso do lugar que chamava de lar, agora em terreno hostil,
também indesejado, com vizinhos novos e a forte presença do medo.
A cidade e seus
senhores nobres e poderosos são, ao seu entender, os legítimos moradores, os
que detém a propriedade da terra, grandes extensões de terras. Estes nascem
herdeiros de propriedades, com o futuro pré-definido, de privilégios e exploração,
naturalizando dessa forma a riqueza e a pobreza. Colocando a riqueza como sua
conquista, através de seus esforços e Inteligências, aqueles que sabem
aproveitar as oportunidades e assim, culpando os pobres pela pobreza, lhes
relacionando a ignorância, preguiça, falta de vontade, mesmo sendo as/os
trabalhadoras/es pobres a produzirem as riquezas.
A pobreza não é gerada
pelos pobres e sim pela exploração e não distribuição da riqueza, ocorrida por várias
gerações, desde o Brasil colonial. Com o passar do tempo, foi-se passando
também por herança, tanto a pobreza quanto a riqueza, sem nunca sequer haver
discussão sobre distribuição das riquezas, sendo difícil até mesmo discutir a
taxação das fortunas. A acumulação de riquezas por um lado nas mãos de poucos,
gera a pobreza e a miséria para muitos. Não haveria pobres se não houvessem
ricos, pobres são pobres somente quando há comparação com os ricos.
Ricos não gostam de
malocas, por isso as querem longe, se esforçam para as destruir. Os (nós)
maloqueiros também não gostamos de viver em malocas, também temos sonhos,
desejos, ensejamos por uma vida melhor. Esta vida poderia vir não com a
destruição dos ricos, mas sim de seus privilégios e distribuição de riquezas,
as quais realmente poderiam acabar com as malocas e melhorar nossas vidas. Ninguém
mora em malocas porque quer, são forçados a morar bem como são forçados a
saírem, sendo que estas forças vêm principalmente das instituições do estado e
privadas. Além do mais, os ricos gozam como se seus privilégios lhes fosse um
direito natural, se aproveitam dessas situações.
Não gostam de malocas
mas gostam do trabalho que elas produzem, se aproveitam da situação de exclusão
extrema para explorar ainda mais as/os trabalhadoras/es, estas/es que em sua
maioria nem sequer conseguem concorrer por vagas de trabalho no mercado formal,
que têm que vender sua força de trabalho conforme seu “valor e necessidade”,
mas sim conforme o “cliente” quiser pagar, logo se você não se sujeitas a
trabalhar nas condições que estão lhe sendo “ofertadas” outro trabalhará em seu
lugar. É quase uma luta, como uma grande competição entre os explorados para
saber quem poderá ter o privilégio de ser contratado/explorado.
Não gostam das/os catadoras/es
mas gostam da reciclagem, querem que seus resíduos saiam da frente de seus
olhos e sejam reciclados, não gostam de pobreza mas pagam pouco e exploram
muito seus/uas empregados/as e muito menos ainda pelos serviços domésticos. Um
pedreiro, servente da construção civil da maloca custa um terço em relação a
outros pedreiros ditos profissionais na realização do mesmo serviço e assim
funciona com os eletricistas, porteiros e domésticas, profissões marcantes da
cidade das malocas. É uma exploração travestida de apoio onde o explorado não
pode reclamar e ainda é obrigado a agradecer.
Alexandro Cardoso (1980 )
Do Lixo a Bixo: a
cultura dos estudos e o tripé de sustentação da vida. Belo Horizonte: Editora
Dialética, 2021.p 59-61