terça-feira, 31 de março de 2026

No crematório

O forno crematório tem três metros de largura, dois e sessenta de comprimento e dois e quarenta de altura. Neste modelo de forno é possível cremar dois corpos, separadamente ao mesmo tempo. Isto faz render mais o serviço e, desde que trocaram o forno por este novo, Ronivon percebe o quão proveitosos se torna seu tempo no trabalho. Seu horário de almoço ganhou mais doze minutos devido a esta melhoria.

Abre a portinhola do forno e insere os caixões cada qual na sua prateleira. Regula a temperatura para 800◦C e verifica as horas. Os corpos são inseridos no forno quando ainda está frio. Senta-se num banco de plástico e folheia uma revista emprestada da recepção.

Nem todos sabem que dois corpos são cremados ao mesmo tempo. A “carvoaria”, como os funcionários apelidaram o local dos fornos, está localizada no subsolo. No andar de cima ficam os parentes, em salas para cerimônias ecumênicas separadas, velando pelo morto antes de ser cremado. A despedida dura quinze minutos. Ronivon acredita que o homem deve retornar ao pó, pois do pó foi criado. Não concorda com as cinzas finais. As cinzas são subversivas. Uma ossada, restos de tecido orgânico, fios de cabelo, entre outros, são indícios que perdurarão por anos. Restarem só as cinzas é não ter vestígio algum. [...]

No columbário, local de depósito das urnas, sempre há cinzas esquecidas. No crematório, todos os dias, por falta de espaço, são dispensadas duas ou três urnas mantidas pelo período máximo de trinta dias cujos parentes dos mortos deixaram de buscar. [...] Quando eles deixam as cinzas par trás, em letras miudinhas lê-se [ num aviso] que um funcionário do crematório deve espargi-las ou inumá-las ao pé de roseiras, respeitosamente, no bem cuidado jardim do crematório. Bem cuidado na parte destinada aos parentes para espalhar as cinzas de seus mortos, local conhecido como cendrário. Na parte dos fundos, o mato alto, as flores murchas e as moscas amontoadas em valas fedorentas recebem esses restos lançado num córrego que segue para os esgotos. É exatamente nos esgotos que vão parar os restos mortais, ou seja, as cinzas fabricadas na carvoaria. Respeitosamente, aquilo que já foi humano é lançado às fezes. [...]

É um trabalho simples. Desde que se goste de fogo e se suporte o calor, não traz aborrecimentos. O cliente nunca reclama, e, caso a mercadoria sofra danos, basta preencher a urna funerária com sobras de cinzas que são guardadas pelo funcionário da manutenção do forno. Este sempre apanha uns punhados de cinzas provenientes de muitas cremações e guarda-as num galão de plástico, Depois são moídas de modo uniforme e repõem a falta de grãos perdidos dos outros.

 

Ana Paula Maia (1977-)

 

Carvão animal [recurso eletrônico] Rio de Janeiro: Record, 2011. Recurso Digital (Trilogia do homem comum)

Nenhum comentário:

Postar um comentário