Ernesto Wesley termina de vestir sua roupa de proteção completa e, com a ajuda de outro bombeiro, ele coloca o equipamento de proteção respiratória. Apanha uma lanterna e um rádio portátil para a comunicação com o comandante da operação. O total de peso acrescido sobre ele é de trinta quilos. Isso dificulta a transpiração, a respiração e agride a estabilidade física e emocional. Geralmente depois da subida de vários andares pelas escadas, ele retorna carregando um corpo desmaiado sobre o seu. Ernesto Wesley consegue suportar duas vezes o seu peso. A repetição de esforço desmedido não pode ser calculada. É um dos poucos bombeiros que conseguem alcançar alturas elevadas no tempo requerido. [...]
De onde todos querem sair, Ernesto Wesley
precisa entrar. Ele sobe as escadas apressado, num ritmo similar ao dos outros
colegas, até atingir o oitavo andar. Quanto mais avança para o alto, mais intensos
o calor e a cortina negra de espessa fumaça que precisa atravessar. Ao chegar
no oitavo andar ouve os gritos de algumas pessoas que ainda estão presas em
seus apartamentos [...]
Crava o machado na porta do apartamento 802, arrebenta-a e em seguida se protege do fogo que avança sobre ele. As chamas estão elevadas e Ernesto corre para o fundo da sala atravessando o fogo. O calor demora para sufocá-lo. Seus pulmões já estão acostumados e sua pele também. A mulher encolhida num canto e sem roupas é abraçada por Ernesto enquanto grita que seu pai está no quarto. [...] . A mulher lhe dá alguns tapas implorando para buscar o pai. “Ele é aleijado”, ela grita. “Está na cama”. Ele atravessa a sala com ela envolta em seus braços e outro bombeiro a ampara no corredor. Ernesto Wesley segue por um sombrio corredor carvoento e derruba a chutes uma porta. O quarto está tomado pelo fogo. Ele escuta um gemido. Avança até o final do corredor sem enxergar, ultrapassando seus limites, sufocando-se, sentindo um pouco de vertigem, arrebenta a porta com o machado e o homem está deitado na cama com fogo ao seu redor. O velho grita de pavor e agarra-se à cama. Ele segura o homem magro e enrugado no colo envolvido pela colcha da cama quando um pedaço de reboco cai a seu lado. O fogo se alastrou por todo o corredor. Ernesto está preso. Mas é por cima das chamas que ele caminha. O calor atravessa as botas e a roupa pesada. As labaredas avançam como serpentes. Desce como velho no colo e sai do prédio. Uma equipe de socorristas apanha o homem com uma maca e Ernesto Wesley retorna para dentro do prédio. Há relato de que alguém está preso no quinto andar, onde o fogo começou.
Ana Paula Maia (1977-)
Carvão animal [recurso
eletrônico] Rio de Janeiro: Record, 2011. Recurso Digital (Trilogia do homem
comum)
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