terça-feira, 31 de março de 2026

Bombeiro no meio das chamas

Ernesto Wesley termina de vestir sua roupa de proteção completa e, com a ajuda de outro bombeiro, ele coloca o equipamento de proteção respiratória. Apanha uma lanterna e um rádio portátil para a comunicação com o comandante da operação. O total de peso acrescido sobre ele é de trinta quilos. Isso dificulta a transpiração, a respiração e agride a estabilidade física e emocional. Geralmente depois da subida de vários andares pelas escadas, ele retorna carregando um corpo desmaiado sobre o seu. Ernesto Wesley consegue suportar duas vezes o seu peso. A repetição de esforço desmedido não pode ser calculada. É um dos poucos bombeiros que conseguem alcançar alturas elevadas no tempo requerido. [...]

De onde todos querem sair, Ernesto Wesley precisa entrar. Ele sobe as escadas apressado, num ritmo similar ao dos outros colegas, até atingir o oitavo andar. Quanto mais avança para o alto, mais intensos o calor e a cortina negra de espessa fumaça que precisa atravessar. Ao chegar no oitavo andar ouve os gritos de algumas pessoas que ainda estão presas em seus apartamentos [...]

Crava o machado na porta do apartamento 802, arrebenta-a e em seguida se protege do fogo que avança sobre ele. As chamas estão elevadas e Ernesto corre para o fundo da sala atravessando o fogo. O calor demora para sufocá-lo. Seus pulmões já estão acostumados e sua pele também. A mulher encolhida num canto e sem roupas é abraçada por Ernesto enquanto grita que seu pai está no quarto. [...] . A mulher lhe dá alguns tapas implorando para buscar o pai. “Ele é aleijado”, ela grita. “Está na cama”. Ele atravessa a sala com ela envolta em seus braços e outro bombeiro a ampara no corredor. Ernesto Wesley segue por um sombrio corredor carvoento e derruba a chutes uma porta. O quarto está tomado pelo fogo. Ele escuta um gemido. Avança até o final do corredor sem enxergar, ultrapassando seus limites, sufocando-se, sentindo um pouco de vertigem, arrebenta a porta com o machado e o homem está deitado na cama com fogo ao seu redor. O velho grita de pavor e agarra-se à cama. Ele segura o homem magro e enrugado no colo envolvido pela colcha da cama quando um pedaço de reboco cai a seu lado. O fogo se alastrou por todo o corredor. Ernesto está preso. Mas é por cima das chamas que ele caminha. O calor atravessa as botas e a roupa pesada. As labaredas avançam como serpentes. Desce como velho no colo e sai do prédio. Uma equipe de socorristas apanha o homem com uma maca e Ernesto Wesley retorna para dentro do prédio. Há relato de que alguém está preso no quinto andar, onde o fogo começou.

 

Ana Paula Maia (1977-)

 

Carvão animal [recurso eletrônico] Rio de Janeiro: Record, 2011. Recurso Digital (Trilogia do homem comum)

No crematório

O forno crematório tem três metros de largura, dois e sessenta de comprimento e dois e quarenta de altura. Neste modelo de forno é possível cremar dois corpos, separadamente ao mesmo tempo. Isto faz render mais o serviço e, desde que trocaram o forno por este novo, Ronivon percebe o quão proveitosos se torna seu tempo no trabalho. Seu horário de almoço ganhou mais doze minutos devido a esta melhoria.

Abre a portinhola do forno e insere os caixões cada qual na sua prateleira. Regula a temperatura para 800◦C e verifica as horas. Os corpos são inseridos no forno quando ainda está frio. Senta-se num banco de plástico e folheia uma revista emprestada da recepção.

Nem todos sabem que dois corpos são cremados ao mesmo tempo. A “carvoaria”, como os funcionários apelidaram o local dos fornos, está localizada no subsolo. No andar de cima ficam os parentes, em salas para cerimônias ecumênicas separadas, velando pelo morto antes de ser cremado. A despedida dura quinze minutos. Ronivon acredita que o homem deve retornar ao pó, pois do pó foi criado. Não concorda com as cinzas finais. As cinzas são subversivas. Uma ossada, restos de tecido orgânico, fios de cabelo, entre outros, são indícios que perdurarão por anos. Restarem só as cinzas é não ter vestígio algum. [...]

No columbário, local de depósito das urnas, sempre há cinzas esquecidas. No crematório, todos os dias, por falta de espaço, são dispensadas duas ou três urnas mantidas pelo período máximo de trinta dias cujos parentes dos mortos deixaram de buscar. [...] Quando eles deixam as cinzas par trás, em letras miudinhas lê-se [ num aviso] que um funcionário do crematório deve espargi-las ou inumá-las ao pé de roseiras, respeitosamente, no bem cuidado jardim do crematório. Bem cuidado na parte destinada aos parentes para espalhar as cinzas de seus mortos, local conhecido como cendrário. Na parte dos fundos, o mato alto, as flores murchas e as moscas amontoadas em valas fedorentas recebem esses restos lançado num córrego que segue para os esgotos. É exatamente nos esgotos que vão parar os restos mortais, ou seja, as cinzas fabricadas na carvoaria. Respeitosamente, aquilo que já foi humano é lançado às fezes. [...]

É um trabalho simples. Desde que se goste de fogo e se suporte o calor, não traz aborrecimentos. O cliente nunca reclama, e, caso a mercadoria sofra danos, basta preencher a urna funerária com sobras de cinzas que são guardadas pelo funcionário da manutenção do forno. Este sempre apanha uns punhados de cinzas provenientes de muitas cremações e guarda-as num galão de plástico, Depois são moídas de modo uniforme e repõem a falta de grãos perdidos dos outros.

 

Ana Paula Maia (1977-)

 

Carvão animal [recurso eletrônico] Rio de Janeiro: Record, 2011. Recurso Digital (Trilogia do homem comum)

quarta-feira, 25 de março de 2026

Mama África

                                                                              Chico César


Mama África

A minha mãe 

É mãe solteira

E tem que fazer mamadeira

Todo dia 

Além de trabalhar

Como empacotadeira

Nas  Casas  Bahia