Lavar roupa deixava minhas costas doloridas. Muito jovem estava eu encurvada sobre o monte de roupa para esfregar e quarar, carregar de um lado a outro e depois passar com o ferro de carvão.
[...] Ali, no espelho d’água do Paraguaçu, vivi por longo tempo cercada da brancura dos tecidos. O rio refletia o branco e muitas vezes a luz me cegava por breves instantes. Eu procurava um lugar bom para limpar as roupas. Batia os lençóis nas pedras, esfregava o tecido encardido e amarelado entre os nós dos dedos. Aquele rio, e isso não saía de minha cabeça, era o rio onde muitas fizeram o mesmo antes de mim. Águas que não lavaram apenas a roupa da Tapera, dos donos das terras e dos padres. Lavaram nossas mágoas e renovaram nossos sonhos. Limparam nossos corpos das aflições que nos consumiam e carregaram segredos que não podiam ser contados.
Itamar Vieira Junior (1979-)
Salvar o fogo. São Paulo: Todavia, 2023. E-book.
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