sábado, 24 de janeiro de 2026

Operadora de caixa

Rita Preta inicia as atividades do dia no supermercado. Senta-se no caixa, conta as cédulas e moedas que recebeu do operador do cofre. Outras operadoras de caixa se alinham numa fila. Depois, encontram seus caixas numerados, sentam-se, contam o dinheiro guardado nos pequenos malotes que lhes foram entregues. Faltam seis minutos para o turno das dez. Ela não pensa mais no temporal de duas horas atrás [...]. Registrar as compras e ouvir o bipe da máquina escaneando o código de barras a trouxe para o presente. Então constata que anda exausta e enumera na mente as causas de seu cansaço[...].

Detergente para louça, sacos de feijão, rolos de papel higiênico, alho triturado e o cheiro de água sanitária que tinha escorrido para fora da garrafa plástica, tudo isso e mais um pouco passa por suas mãos ágeis e faz o dia seguir mais depressa. Os ruídos mecânicos da esteira de compras, da impressora de cupom fiscal e do bipe do escaneador não são os mais desagradáveis de escutar, e, às vezes, mesmo nos dias de folga, Rita sente falta daquele trabalho repetitivo, que lhe permite pensar sem que lhe cobrem, por alguns minutos, a falta de concentração.

Naqueles instantes entre o alerta vermelho para o próximo cliente e o pagamento da compra anterior, Rita Preta aproveita para inventariar com rigor as razões de sua exaustão.

 

Itamar Vieira Junior (1979-)

 

Coração sem medo. São Paulo: Todavia, 2025.E-book

 

 

  

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Indo ao mercado

Amrus Natalsya (1933-)

 

Lavar roupa


 Lavar roupa deixava minhas costas doloridas. Muito jovem estava eu encurvada sobre o monte de roupa para esfregar e quarar, carregar de um lado a outro e depois passar com o ferro de carvão.
 [...] Ali, no espelho d’água do Paraguaçu, vivi por longo tempo cercada da brancura dos tecidos. O rio refletia o branco e muitas vezes a luz me cegava por breves instantes. Eu procurava um lugar bom para limpar as roupas. Batia os lençóis nas pedras, esfregava o tecido encardido e amarelado entre os nós dos dedos. Aquele rio, e isso não saía de minha cabeça, era o rio onde muitas fizeram o mesmo antes de mim. Águas que não lavaram apenas a roupa da Tapera, dos donos das terras e dos padres. Lavaram nossas mágoas e renovaram nossos sonhos. Limparam nossos corpos das aflições que nos consumiam e carregaram segredos que não podiam ser contados. 

 Itamar Vieira Junior (1979-) 

 

 Salvar o fogo. São Paulo: Todavia, 2023. E-book.