Rita Preta inicia as atividades do dia no supermercado. Senta-se no caixa, conta as cédulas e moedas que recebeu do operador do cofre. Outras operadoras de caixa se alinham numa fila. Depois, encontram seus caixas numerados, sentam-se, contam o dinheiro guardado nos pequenos malotes que lhes foram entregues. Faltam seis minutos para o turno das dez. Ela não pensa mais no temporal de duas horas atrás [...]. Registrar as compras e ouvir o bipe da máquina escaneando o código de barras a trouxe para o presente. Então constata que anda exausta e enumera na mente as causas de seu cansaço[...].
Detergente para louça,
sacos de feijão, rolos de papel higiênico, alho triturado e o cheiro de água
sanitária que tinha escorrido para fora da garrafa plástica, tudo isso e mais
um pouco passa por suas mãos ágeis e faz o dia seguir mais depressa. Os ruídos
mecânicos da esteira de compras, da impressora de cupom fiscal e do bipe do
escaneador não são os mais desagradáveis de escutar, e, às vezes, mesmo nos
dias de folga, Rita sente falta daquele trabalho repetitivo, que lhe permite
pensar sem que lhe cobrem, por alguns minutos, a falta de concentração.
Naqueles instantes
entre o alerta vermelho para o próximo cliente e o pagamento da compra
anterior, Rita Preta aproveita para inventariar com rigor as razões de sua exaustão.
Itamar Vieira Junior
(1979-)
Coração sem medo. São
Paulo: Todavia, 2025.E-book
