| Walter Firmo (1937-) |
Coletânea de excertos sobre as várias faces do trabalho, escolhidos a partir de muitas e prazerosas leituras de textos literários e afins (com algumas ilustrações)
[Em meados do séc.18], já é tempo de dizermos alguma coisa da grande habilidade e aptidão dos índios da América para todas as artes e ofícios...nas missões e casa dos brancos, em que aprendem todos os ofícios que lhes mandam ensinar, com tanta facilidade, destreza e perfeição como os melhores mestres, de sorte que podem competir com os mais insignes do ofício; a muitos bastam verem trabalhar algum oficial na sua mecânica para o imitarem com perfeição...Em uma vila de portugueses havia um índio ferreiro e serralheiro tão insigne, que os mesmos portugueses do mesmo ofício lhe davam não só as primazias, mas também os votos para ser juiz do ofício...No colégio dos padres da Companhia na cidade do Pará estão uns dois grandes anjos por tocheiros com tal perfeição que servem de admiração aos europeus e são a primeira obra que fez um índio daquele ofício.
João Daniel (1722-1776)
In Antonio Porro. Dicionário etno-histórico
da Amazônia colonial. São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiros, 2007, p.171
Famílias como a da
Dra. Maria Carolina de Jesus, bem como a minha e de milhares de brasileiras/os são
marcadas pela exclusão social e econômica, pela exclusão do conhecimento e dos
saberes, mesmo sendo trabalhadoras/es, gerando riquezas, mas apenas ficando
imerso na pobreza e na miséria, em muitos casos, íntimas da fome, excluídas e
indesejadas socialmente. [...] É um definhamento psicológico dormir sem saber
que amanhã pode não haver comida para alimentar os filhos, dinheiro para pagar
as contas, roupas para se aquecer. Vocês não sabem o que é isso? Procurem
ajudar quem infelizmente sabe.
Famílias
caracterizadas pela falta de uma cidade para morar, não desejadas nem no
interior, nas suas cidades natal e muito menos na cidade grande, na cidade as
quais foram obrigadas a morar. Vivendo numa espécie de limbo geográfico, sem
assistência do estado, sem cidadania, com o estado tratando as famílias como
rejeitos sociais, através do qual se tornam problemas caracterizados por serem
indesejáveis. Imaginem sobreviver nessas condições, afastados de seus
familiares, longe e expulso do lugar que chamava de lar, agora em terreno hostil,
também indesejado, com vizinhos novos e a forte presença do medo.
A cidade e seus
senhores nobres e poderosos são, ao seu entender, os legítimos moradores, os
que detém a propriedade da terra, grandes extensões de terras. Estes nascem
herdeiros de propriedades, com o futuro pré-definido, de privilégios e exploração,
naturalizando dessa forma a riqueza e a pobreza. Colocando a riqueza como sua
conquista, através de seus esforços e Inteligências, aqueles que sabem
aproveitar as oportunidades e assim, culpando os pobres pela pobreza, lhes
relacionando a ignorância, preguiça, falta de vontade, mesmo sendo as/os
trabalhadoras/es pobres a produzirem as riquezas.
A pobreza não é gerada
pelos pobres e sim pela exploração e não distribuição da riqueza, ocorrida por várias
gerações, desde o Brasil colonial. Com o passar do tempo, foi-se passando
também por herança, tanto a pobreza quanto a riqueza, sem nunca sequer haver
discussão sobre distribuição das riquezas, sendo difícil até mesmo discutir a
taxação das fortunas. A acumulação de riquezas por um lado nas mãos de poucos,
gera a pobreza e a miséria para muitos. Não haveria pobres se não houvessem
ricos, pobres são pobres somente quando há comparação com os ricos.
Ricos não gostam de
malocas, por isso as querem longe, se esforçam para as destruir. Os (nós)
maloqueiros também não gostamos de viver em malocas, também temos sonhos,
desejos, ensejamos por uma vida melhor. Esta vida poderia vir não com a
destruição dos ricos, mas sim de seus privilégios e distribuição de riquezas,
as quais realmente poderiam acabar com as malocas e melhorar nossas vidas. Ninguém
mora em malocas porque quer, são forçados a morar bem como são forçados a
saírem, sendo que estas forças vêm principalmente das instituições do estado e
privadas. Além do mais, os ricos gozam como se seus privilégios lhes fosse um
direito natural, se aproveitam dessas situações.
Não gostam de malocas
mas gostam do trabalho que elas produzem, se aproveitam da situação de exclusão
extrema para explorar ainda mais as/os trabalhadoras/es, estas/es que em sua
maioria nem sequer conseguem concorrer por vagas de trabalho no mercado formal,
que têm que vender sua força de trabalho conforme seu “valor e necessidade”,
mas sim conforme o “cliente” quiser pagar, logo se você não se sujeitas a
trabalhar nas condições que estão lhe sendo “ofertadas” outro trabalhará em seu
lugar. É quase uma luta, como uma grande competição entre os explorados para
saber quem poderá ter o privilégio de ser contratado/explorado.
Não gostam das/os catadoras/es
mas gostam da reciclagem, querem que seus resíduos saiam da frente de seus
olhos e sejam reciclados, não gostam de pobreza mas pagam pouco e exploram
muito seus/uas empregados/as e muito menos ainda pelos serviços domésticos. Um
pedreiro, servente da construção civil da maloca custa um terço em relação a
outros pedreiros ditos profissionais na realização do mesmo serviço e assim
funciona com os eletricistas, porteiros e domésticas, profissões marcantes da
cidade das malocas. É uma exploração travestida de apoio onde o explorado não
pode reclamar e ainda é obrigado a agradecer.
Alexandro Cardoso (1980 )
Do Lixo a Bixo: a
cultura dos estudos e o tripé de sustentação da vida. Belo Horizonte: Editora
Dialética, 2021.p 59-61
1.300° à sombra dos telheiros retos
12.000
cavalos invisíveis pensando
40.000
toneladas de níquel amarelo
Para
sair do nível das águas esponjosas
E
uma estrada de ferro nascendo do solo
Os
fornos entroncados
Dão
o gusa e a escória
A
refinação planta barras
E
lá embaixo os operários
Forjam
as primeiras lascas de aço
Oswald de Andrade (1890-1954)
Cada um de nós vê a vida segundo sua atividade, segundo seu lugar na vida ou nos acontecimentos de que participa. Podemos pressupor que a enfermeira viu uma guerra, a padeira viu outra, a paraquedista uma terceira e a piloto viu uma quarta, a comandante de um pelotão de atiradores de fuzil uma quinta... Cada uma delas esteve na guerra que existia em seu raio de visão: a de uma era a mesa de cirurgia: “Vi tantos braços e pernas amputados... Já nem acreditava que em algum lugar havia um homem inteiro. Parecia que todos estavam feridos ou mortos...” (A. D., primeiro-sargento, enfermeira); de outra, os caldeirões da cozinha de campanha: “Depois de um combate às vezes não sobrava ninguém... Você cozinhava caldeirões de mingau, caldeirões de sopa, e não havia a quem dar...” (I. Z., soldado, cozinheira); a da terceira era a cabine de piloto; “Nosso acampamento ficava na floresta. Cheguei de voo e decidi entrar na floresta; já estávamos no meio do verão, os morangos estavam no ponto. Passava por uma trilha quando vi um alemão no chão... Ele já estava escuro... Me deu medo. Até aquele momento ainda não tinha visto mortos, e já combatia na guerra havia um ano. Lá no alto era diferente... Quando você está voando, só pensa em uma coisa: encontrar o alvo, bombardear e voltar. Não chegávamos a ver os mortos. Não tínhamos esse medo...” (A. B., tenente da guarda, piloto). E a guerra dos partisans até hoje está associada ao cheiro da fogueira acesa: “Fazíamos tudo na fogueira –assávamos o pão, cozinhávamos a comida; no carvão que sobrava colocávamos as camisas e as botas de feltro para secar. À noite, nos aquecíamos...”E. V.)
Svetlana Aleksiévitch (1948- )